Com regência de Frank Shipway, uma outra Osesp

Química entre maestro e orquestra e talento do pianista Paul Lewis fazem o grupo soar acima da média de seus concertos

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h11

A certa altura de seu livro sobre Brahms, Malcolm MacDonald diz que o compositor não queria saber de uma "música do futuro" que não possuísse passado. O mesmo aplica-se ao finlandês Jean Sibelius. Rotulados como "conservadores" - um em relação a Wagner, outro por causa da Segunda Escola de Viena -, ambos nutriram-se do passado para construir universos musicais muito pessoais. Mas arriscaram olhadelas na janela do futuro.

O primeiro concerto para piano de Brahms e a Sinfonia nº 4 de Sibelius inovam, e muito, no domínio da forma. Já se disse que Brahms compôs, de fato, uma sinfonia com piano obbligato. Faltou acrescentar que, se o tecido orquestral é tão desenvolvido como o de uma sinfonia, a parte solista é igualmente complexa e diabolicamente difícil. O piano ora submerge na massa orquestral, ora ressurge na melhor tradição romântica (como no Adagio que Brahms dedicou a Clara Schumann).

Anteontem, numa Sala São Paulo com metade da lotação por causa dos confrontos da polícia com os manifestantes do Movimento Passe Livre, o inglês Paul Lewis provou por que é hoje um dos mais aclamados pianistas da atualidade: toque preciso, musicalidade notável, talento de exceção. E teve como bônus a competência do maestro Frank Shipway, que sempre estabelece rara sintonia com os músicos da Osesp. Anteontem, ela até parecia uma orquestra europeia - pela profunda sonoridade e encorpada textura das cordas, excelência das madeiras e senso arquitetônico de continuidade normalmente ausente nas execuções rotineiras. Não se trata só de empenho, mas de adesão total à concepção musical de Shipway. E ele gosta de trabalhar cada frase, cada vibrato nas cordas, cada detalhe, sem perder de vista a macroestrutura da obra.

Um belíssimo improviso de Schubert encerrou a primeira parte de um concerto que em seguida nos revelaria um Sibelius atrevido, de olho no futuro. Em sua quarta sinfonia, uma das menos executadas entre suas sete, ele rompe com as anteriores e assume uma escrita mais moderna, desconstruindo a forma. Uma fragmentação camerística das seções orquestrais quase liquefaz esta obra enigmática, com aforismos pipocando sucessivamente. Mantém-se porém a profunda lógica temática, uma de suas características.

Que bom seria se todos os compositores ditos conservadores fizessem música de qualidade tão elevada quanto Brahms e Sibelius e de vez em quando arriscassem tatear o futuro. O mérito de Shipway e da Osesp foi fazê-los soar modernos. Não por acaso, os músicos o aplaudiram batendo os pés com entusiasmo.

O extra já estava incorporado ao programa, visando concluí-lo em fortíssimo, já que a sinfonia termina placidamente. Desde sua estreia, em 1899, a bombástica Finlandia virou peça de propaganda da campanha contra o domínio russo e símbolo da nacionalidade reprimida.

SONORIDADE PROFUNDA E ENCORPADA CHAMOU ATENÇÃO NA QUINTA-FEIRA

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