Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Com pouco acesso a cinemas, museus e teatros, a TV é o grande bem cultural do brasileiro

Levantamento do IBGE aponta que os cinemas estão presentes em apenas 10% dos municípios, os museus em 25,9% das cidades e os teatros em 20%. Por outro lado 97,2% dos lares brasileiros possuem TV

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 10h00

RIO - A cultura no Brasil ainda é um luxo para poucos. Levantamento divulgado nesta quinta-feira, 5, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que a grande maioria dos municípios do País não tem cinemas, museus ou teatros. O grande bem cultural do brasileiro segue sendo a televisão, presente em praticamente todos os lares, sem distinção de raça, gênero e classe social; agora também em versão de tela plana.

As razões são diversas, como demonstra o Sistema de Informações e Indicadores Culturais 2007-2018, que faz um cruzamento de dados de diversas pesquisas do IBGE. As verbas públicas destinadas à área perderam importância ao longo dos anos e o número de empresas privadas do setor diminuiu. Em tempos de crise econômica, a cultura também está longe de ser uma prioridade na destinação do orçamento familiar.

“A crise dos anos recentes levou a uma queda generalizada na capilaridade geográfica dos equipamentos culturais e meios de comunicação entre as medições de 2014 e 2018”, aponta a pesquisa.

Os cinemas, por exemplo, estão presentes em apenas 10% dos municípios. Os museus aparecem em 25,9% das cidades e os teatros em 20%. As livrarias tiveram uma queda acentuada desde 2001, quando podiam ser encontradas em quase metade dos municípios (42,7%), e 2018 (17,7%). Uma nota dissonante são as bibliotecas públicas. Presentes em 87% das cidades.

“Houve políticas públicas específicas durante muitos anos para aumentar a capilaridade das bibliotecas, o que explica a discrepância”, explicou o coordenador do setor de População e Indicadores Sociais do IBGE, Leonardo Athias.

A evolução tecnológica e as mudanças nas formas de consumo de cultura, claro, também influenciam essas estatísticas. Videolocadoras, lojas de disco e lan houses, que já tiveram presença significativa nos municípios, praticamente desapareceram em 2018.

O provedor de internet, por sua vez, já alcança 58% dos municípios, cobrindo praticamente 85% da população do país. O telefone celular também está bastante difundido no país. Segundo o levantamento, 78,2% das pessoas com mais de dez anos de idade têm um telefone móvel para uso pessoal.

O eletrodoméstico mais presente na casa dos brasileiros é a televisão, que está em nada menos que 97,2% dos lares. Diferentemente de qualquer outro bem de consumo, “a posse da televisão não apresenta diferenças significativas em relação à cor ou raça, grupos de idade, nível de instrução e gênero”, sendo, de longe, o aparelho mais democrático do país. A TV de tela plana, por sua vez, já está em 74% das casas.

“A TV está praticamente em todos os municípios e, com a popularização das novas tecnologias e barateamento de preços, tem ainda um potencial de crescimento”, disse Leonardo Athias, citando as plataformas de streaming.

Os gastos com cultura, como era de se esperar, aparecem em quarto lugar no orçamento das famílias, abaixo de alimentação, habitação e transporte. O gasto médio mensal é de R$282,86 e representa 7,5% do consumo total.

Esse percentual varia um pouco de acordo com as classes sociais. Entre os mais pobres, é de 5,9%; entre os mais ricos, chega a 8%. E como não poderia deixar de ser, a maior parte desse orçamento é destinado à aquisição de eletrodomésticos, telefonia, TV e internet.

Na análise de Leonardo Athias, o percentual não é tão baixo assim. “O mundo todo tem uma estrutura de gastos parecida, com prioridade para alimentação, habitação e transporte.”, disse o analista. “Mas o gasto com cultura é bem parecido com o destinado à saúde, por exemplo, então me parece um percentual relevante.”

GASTOS PÚBLICOS

Os gastos públicos em cultura aumentaram de uma maneira geral entre 2011 e 2018, passando de R$ 7,1 bilhões para R$ 9,1 bilhões. No entanto, a verba cultural perdeu importância quando comparada ao total de gastos (de 0,28% para 0,21%).

O número de empresas e organizações voltadas para a cultura também caiu. De 353,2 mil (8% do total), em 2001, para  325,7 mil (6,5% do total), em 2017. O número de pessoas ocupadas neste setor também caiu, passando de 4,2% para 3,7% no mesmo período.

O setor segue o padrão de desigualdade geral do país. Em 2017, a região sudeste concentrava 58,5% dos assalariados nas atividades culturais. O setor tem mais ocupados da cor branca do que pretos e pardos, mas o percentual de negros está aumentando: de 42,3%, em 2014, para 45,7, em 2018. Entre 2014 e 2018 a participação feminina no setor cresceu de 43,7% para 50,5%, mas elas continuam ganhando o equivalente a 67% do salário deles.

"Aqui, tenho certeza de que o cinema seria o mais procurado"

Ninguém quer só televisão. A atendente de farmácia Lívia da Silva Oliveira, de 20 anos, moradora de Moeda, a 60 quilômetros de Belo Horizonte, quer também cinema e teatro. A cidade, de aproximadamente 5 mil habitantes, está entre os municípios brasileiros que não contam com salas de exibição de filmes ou para encenação de peças, e têm na televisão um dos principais meios de entretenimento. "Faz muita falta. Para mim, muito em função de reunir os amigos. Aqui, tenho certeza de que o cinema seria o mais procurado. Ver filme na televisão não é a mesma coisa", compara.

Lívia conta haver muita reclamação entre os amigos. "O cinema mais próximo fica em um shopping em Belo Horizonte. Às vezes, a turma combina e vai até lá". A diversão na cidade, fora a televisão, conforme a atendente, acaba sendo saídas para bares e restaurantes. "Seria algo bem legal ter cinema e teatro aqui", afirma.

A última experiência relacionada ao cinema na cidade ocorreu em meados da década de 1990. A proprietária de um bar decidiu colocar no fundo do estabelecimento um telão e cadeiras. As sessões aconteciam nas tardes de domingo. "Não era cobrado nada. Fazia porque o pessoal era muito gente boa", lembra a comerciante Maria Obete de Oliveira, de 51 anos, idealizadora do projeto, que durou cerca de um ano. Um dos filmes projetados foi Velozes e Furiosos. Maria, hoje, tem uma pizzaria na cidade.

A secretária municipal de Cultura, Imaculada dos Santos Alves, defende que tanto o cinema como o teatro são importantes, mas o fato de não existirem no município, não quer dizer que a cultura está abandonada. "Nesta época do ano acontecem as mostras dos alunos com base em projetos na área da literatura desenvolvidos ao longo do ano juntamente com os professores. Muitos produzem peças de teatro", exemplifica.

Segundo a secretária, em relação ao cinema, filmes ainda podem ser vistos na televisão ou plataformas de streaming. "Em relação ao teatro, porém, isso não acontece", reconhece.

Imaculada Alves também rememora que a cidade já chegou a ter cinema, muitas décadas atrás, e que a falta de recursos do poder público é um obstáculo para que o equipamento volte a existir na cidade. "Diversão, lazer são fundamentais, mas, no caso de cidades pequenas como a nossa, com poucos recursos, não dá para retirar dinheiro da saúde, por exemplo, para investir no setor", argumenta./Leonardo Augusto, especial para O Estado

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