Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Com Of Montreal e Mika, parque tem sua ''Noite de Parada Gay''

A banda e o cantor transformaram o Playcenter numa grande pista de dança, com performances circenses

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

Uma semana depois de ataques violentos a homossexuais na Avenida Paulista e no Arpoador (Rio), o público gay deitou e rolou no território livre do Playcenter para ver shows de Mika, Of Montreal e Hot Chip. "Estou me sentindo na parada gay", comentou um jovem aparentemente hétero, depois do divertido show de Mika. E hoje tem Scissor Sisters, inédito no Brasil como eles, na Via Funchal.

A convivência pacífica entre público de diferentes tribos já rola naturalmente no Planeta Terra, mas nunca o festival foi tão colorido. Fantasiados, integrantes da banda de Mika, do Empire of the Sun e Of Montreal pareciam personagens saídos dos brinquedos do Playcenter (a maioria, aliás, estava funcionando) ou de alguma fábula infantil. Além disso, teve uma profusão de vocais em falsete - Mika, Kevin Barnes (Of Montreal), Michael Angelakos (Passion Pit), Thomas Mars (Phoenix), Chris Keating (Yeasayer) - quebrado só pela ferocidade straight do Pavement.

O multicolorido fã-clube de Mika se destacava de longe, ainda sob o mormaço da tarde, misturando-se à galera de camisa de estampa xadrez (herança grunge tardia) e às camisetas pretas de fãs do Smashing Pumpkins. Casais masculinos de minúsculos shortinhos Carla Perez, com a barra virada, circulavam de mãos dadas ou trocavam carícias assistindo aos shows dos Novos Paulistas, Mika e Hot Chip.

No som prevaleceu a mistura de dance e rock, a cara mais evidente do pop dos anos 2000. Em comum algumas dessas bandas também têm uma certa afetação, e a impressão de estarem fazendo variações da mesma música.

Preparando o terreno para Mika no Sonora Stage (o palco principal), com seu misto de circo e teatro, Of Montreal foi o primeiro a rodar o carrossel de atrações divertidas, com seu misto de glam e dance rock, psicodelia e pitadas de rhythm and blues, transformando o asfalto do parque numa imensa pista de dança. Usando base nos olhos e minissaia de filó, o frenético Barnes abriu o show cantando a inédita Black Lion Massacre, que vai estar no EP The Controller Sphere, previsto para 2011.

Como vem fazendo na turnê internacional, a banda deu ênfase ao repertório do álbum mais recente, False Priest, recheando o roteiro com hits dançantes dos anteriores, como Suffer for Fashion e Wraith Pinned to the Mist and Other Games, mais um link com as atrações do Playcenter. A banda foi a que melhor explorou as possibilidades visuais, mesclando cenas da performance com vídeos próprios.

Rainha da noite. Mika, como se previa, foi a atração mais concorrida entre o público gay. Elegante, carismático e com vocal potente, virou a rainha da noite, num show recheado de canções infalíveis, como Relax (Take it Easy), Love Today, Grace Kelly e We Are Golden, para manter a pista acesa.

Por falar em ícones gays, Mika tem a capacidade de Elton John para criar hits grudentos (Billy Brown é uma balada marcheada típica do velho popstar), a força vocal e performática de Freddie Mercury (a balada épica Happy Ending remete às extravagâncias do Queen) e o apelo dançante do ídolo da disco music Sylvester (especialmente em Love Today).

Há quem veja nessa mistura de referências uma qualidade, outros acreditam tratar-se de um produto de colagem oportunista - o toque afro de Blue Eyes, por exemplo, lembra Ricky Martin ou a experiência latina de Madonna em La Isla Bonita. E por aí vai. Porém, Mika, além de cantar pra valer, exibindo potência, grande extensão e versatilidade na variação de timbres, é um ótimo entertainer.

Misturando canções de seus dois álbuns (o primeiro, Life in Cartoon Motion parece uma coletânea de hits) e acompanhado de uma banda poderosa, o cantor fez de tudo: tocou e subiu no piano decorado com flores artificiais, regeu a plateia no refrão de Blame it on the Girls, "matou" todos os integrantes da banda e "se matou" numa encenação meio circense de Love Today, trouxe tambores de latão a la Stomp em Lollipop.

E também, como convém a um ídolo fashion, variou o figurino, trocando o casaquinho de tocador de flauta em fanfarra por uma camiseta listrada de cauda no fim. Com a sequência final, Mika matou a pau, deixando a impressão de que o show foi curto. Ele sozinho vale por um Playcenter.

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