Com o pássaro de fogo, instantes mágicos

Obra de Stravinski é destaque de apresentação da Osesp

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

O maestro espanhol Rafael Frühbeck é uma metralhadora giratória. No encontro com o público hora e meia antes do concerto de anteontem, na Sala São Paulo, dentro da série Música na Cabeça, atacou com bom humor o "perigo amarelo" e as mulheres. A seu ver, duas invasões que sofrem hoje as orquestras: "75% dos músicos são mulheres e 75% são asiáticos". Pediu "reserva de mercado" para os homens e acusou os asiáticos de terem "técnica mas não personalidade musical". Comparou seu instrumento de trabalho, a orquestra, a um automóvel, onde "a peça mais importante é o motorista". Ou seja, qualquer orquestra pode ter seu momento memorável ou fracassar, dependendo de seu condutor. Meio óbvio, antigão, mas verdadeiro.

Defendeu a música espanhola do século 20, incluindo seus maiores sucessos, como o Concerto de Aranjuez, de Rodrigo. Mas disse que gosta dos contemporâneos como Luis de Pablo, Tomás Marco e Xavier Montsalvatge. Retornará à Osesp em 2013, mas infelizmente não regerá nenhuma de suas paixões contemporâneas.

A infelicidade também rondou o repertório de seu segundo concerto com a Osesp. Foi bela, como se esperava, a primeira parte, onde o violino de modesta sonoridade mas preciso e vulcânico de Ilya Gringolts brilhou no concerto de Tchaikovski. Inteligente, Burgos rebaixou a dinâmica da orquestra.

A segunda parte foi um equívoco. O maestro merengue (torcedor fanático do Real Madrid) "queimou" cinco extras fantásticos, que deixariam o público extasiado se executadas na hora certa. Inseridas no concerto, suas cinco orquestrações tipo exportação de peças para piano de Albéniz, nascidas por necessidade comercial de sua gravadora nos anos 60 (como revelou minutos antes no encontro com o público), soam como fogos de artifícios que só conseguem transformar em tediosos clichês da música espanhola o que soa como delicadeza e refinamento no piano.

Ao todo, Burgos fez 150 minutos de música com a Osesp em dois programas diferentes. Desse total, em apenas 22 minutos aconteceu a combustão mágica entre uma obra genial, um maestro competente e bons músicos que deixa a plateia eletrizada. Foi no Pássaro de Fogo, de Stravinski. Primeiro porque a partitura do atrevido russo de 27 anos que embasbacou o público parisiense em 1910 ainda hoje impacta qualquer tipo de plateia. Depois porque para os músicos a obra é uma festa, onde praticamente todos os naipes se expõem e a sutileza nas texturas é um show à parte. Não se assustem se, ao fazer as contas, se derem conta de que tivemos, em 150 min, só 22 de música fulgurante. Muitas vezes concertos inteiros se arrastam entediantes. Afinal, momentos mágicos são mágicos justamente porque são raros.

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