Com o efeito de um 'feitiço'

Realidades se dividem e se fundem num romance em que histórias trasnsformam ações

DENNIS LIM / BOOKFORUM,

03 de novembro de 2012 | 04h57

As histórias de Haruki Murakami estão sempre resvalando de um plano de existência para outro. Quer se passem no fundo de um poço (The Wind-Up Bird Chronicle) ou no alto de uma roda-gigante (Minha Querida Sputnik) ou através de uma tela de televisão (Após o Anoitecer), a maioria de seus personagens em algum ponto se vê transportada do que considerava realidade para uma nova e estranha irrealidade. Mas Murakami, em particular, argumentaria que, em meio à confusão de nossa nova desordem mundial, esses conceitos não são exatamente o que costumavam ser. Escrevendo no International Herald Tribune, em 2010, ele se perguntava: "Numa era em que a realidade é insuficientemente real, quanta realidade pode possuir uma história ficcional?" Estendendo um experimento mental, Murakami chama nossa realidade verdadeira de Realidade A e o mundo hipotético que poderíamos ter tido se o 11 de Setembro não tivesse ocorrido de Realidade B. A Realidade A teria um "nível de realidade inferior" ao da "mais racional" Realidade B? Nosso mundo seria menos real do que um mundo irreal? E se o nosso senso de realidade mudou fundamentalmente, como isso afeta as histórias que contamos?

 

Os personagens do novo e volumoso romance de Murakami, 1Q84, passam boa parte do tempo se desconcertando com a relação entre duas realidades. Uma é a Tóquio de 1984. A outra não é exatamente um mundo paralelo - "Você anda lendo ficção científica demais", uma figura oracular zomba quando alguém levanta essa possibilidade -, mas uma variação sutil e funestamente torcida, a nova realidade que se materializou quando a velha "mudou de trilho". Um dos dois personagens principais do livro a chama de 1Q84, "um mundo que carrega uma pergunta". (É também um trocadilho: nove em japonês se pronuncia "kyu", como a letra Q em inglês).

 

Uma espécie de apoteose para o mais popular romancista vivo do Japão, 1Q84 combina a melancolia destilada dos contos e romances menos volumosos de Murakami (Norwegian Wood; South of the Border, West of the Sun) com a grande imprevisibilidade de suas obras épicas, mais deliberadamente sérias (The Wind-Up Bird Chronicle, Kafka à Beira-Mar). Três livros em um, totalizando 944 páginas, é o comentário mais elaborado e extenso dos temas que ele tem retrabalhado por 30 anos: solidão, desejo reprimido, o viés de violência latente do Japão (da humanidade), a forma do tempo, o caráter elusivo do ser, a maleabilidade da realidade. Seus detratores o criticam por se repetir, mas a repetição e a desfamiliarização (sua outra face) são ferramentas vitais no arsenal desse autor obsessivo. Transmigrando personagens e enigmas, rearranjando leitmotivs em novos padrões, suas histórias são paradigmas do incomum, baseadas na premissa da peculiar coexistência do familiar e do não familiar. O déjà vu é tanto o viés dominante como o princípio organizador de sua obra.

 

Os protagonistas de 1Q84, Aomame e Tengo, cujas histórias são contadas em capítulos alternados, são versões da "garota solitária comum" e do "rapaz solitário comum" de um dos contos mais conhecidos de Murakami, On Seeing the 100% Perfect Girl One Beautiful April Morning, que sabiam desde tenra idade que foram feitos um para o outro e de alguma forma se desencontraram. Como os adolescentes enamorados de South of the Border, é um momento único que sela seus destinos aos 10 anos. Reagindo a uma espécie de gesto de seu colega de classe Tengo, a rejeitada e intimidada Aomame, evitada por dizer orações em voz alta (seus pais pertencem a uma seita fanática cristã), estende a mão e aperta a dele. Essa conexão táctil, elétrica, os marca indelevelmente. E aí, sem trocar uma palavra, eles desaparecem da vida um do outro por anos.

 

As buscas românticas de Murakami são tipicamente relatos em primeira pessoa de um narrador masculino aflito, definhando por um garota que realizou um ato de desaparecimento. Em 1Q84, porém, narrado na terceira pessoa, a busca é mútua: dupla, espelhada e amplificada a proporções cósmicas. A atração inicial de Tengo e Aomame é tão profunda que sua muito postergada reunião - aos 30 anos - pede nada menos que uma correção de curso do universo. E apesar de Tengo lembrar um sem-número de personagens discretos de Murakami, a compenetrada e pensativa Aomame é, de algum modo, uma criação surpreendente para um autor que com frequência posicionou mulheres como catalisadoras narrativas ou projeções masculinas: uma personagem feminina integralmente imaginada com desejos complexos e uma rica existência interior.

 

As vidas de Aomame e Tengo aparentemente evoluíram de maneira concertada. Ambos saíram de casa e cortaram laços com suas famílias tirânicas no começo da adolescência, e apesar de nada celibatários (Tengo se relaciona com uma mulher casada mais velha e Aomame frequenta bares de solteiros), ambos se esquivam de ligações românticas. Suas órbitas começam a se entrelaçar quando Tengo, professor de matemática e aspirante a romancista, é contratado para reescrever Air Chrysalis, novela de uma tímida garota de 17 anos chamada Fuka-Eri. Essa história surreal de uma menina que vive numa comuna e encontra uma tribo possivelmente maligna de Pequeninos foi inspirada numa experiência real. O pai de Fuka-Eri é o líder de um culto chamado Sakigake, do qual ela fugiu alguns anos atrás. O livro, que se torna best-seller, também ganha vida própria, e alguns de seus detalhes mais bizarros conseguem saltar da página e aparecer no mundo físico de 1Q84, no qual Tengo e Aomame foram parar sem saber muito bem como.

 

Como Tengo, Aomame tem dois empregos. Treinadora de um clube esportivo, ela é também uma assassina que elimina homens truculentos para uma viúva rica que mantém um abrigo para mulheres agredidas pelos maridos. Seu método, que se apoia numa consciência sobrenatural da musculatura humana, é enfiar delicadamente um pequenino picador de gelo num ponto na base do cérebro, um procedimento instantaneamente letal, "simples como enfiar uma agulha num pedaço de tofu". Sua missão mais difícil até o momento a leva a ter contato direto com o núcleo sombrio do culto Sakigake.

 

Os livros mais longos de Murakami amiúde avançam por uma livre associação de ideias. 1Q84, alternando entre os potenciais amantes, é mais convencional. O ponto de convergência da narrativa é também o momento prometido da consumação romântica. Mas apesar de a ação principal se estender por meros nove meses (provavelmente não é incidental que esse recorte de tempo seja também a duração da gestação humana), há amplos flash-backs para episódios formativos e cenas primordiais. E apesar do movimento evolutivo, as reflexões esquisitas de Tengo sobre a forma do tempo - que se "deforma à medida que avança" e não é uma linha reta, mas, talvez, "uma rosquinha retorcida" - são uma chave da estrutura secreta do livro, que deve ser encontrada na rede de histórias que nele se entrecruzam e se influenciam mutuamente.

 

Assim como a lembrança comum que perseguiu Aomame e Tengo por duas décadas abre caminho para suas mentes conscientes e gradualmente envolve a história, 1Q84 induz uma vertigem quintessencialmente murakamiana - o passado se infiltra no presente, causa e efeito se confundem, e os personagens são impelidos por forças fora do seu controle e compreensão. A mais potente dessas forças é a ficção. 1Q84 está repleto de histórias dentro de histórias, e algumas delas, uma vez contadas, podem deformar a realidade, ou literalmente mudar o mundo. Além de Air Chrysalis, que ativa todo um caos cósmico, há contos de ninar, sonhos narrados e, entre muitas alusões literárias, acenos para Orwell, Chekhov, Dostoiévski e Shakespeare. Town of Cats, uma vinheta assombrosa estilo Além da Imaginação (atribuída a um escritor alemão fictício não nomeado) sobre um homem que acaba abandonado num "lugar onde ele está para se perder", torna-se uma história moralizante prática para o existencialmente aflito Tengo. As microficções plantadas por todo 1Q84 são como pequenas bombas-relógio, detonando não com o impacto, mas mais tarde, inesperadamente, quando adquirem novas ressonâncias ou cruzam com outras narrativas. Mais do que qualquer romance de Murakami até agora, 1Q84 é ficção sobre o poder da ficção - um experimento metaficcional que tem o efeito de um feitiço.

 

O terreno movediço de 1Q84 pode não obedecer a muitas das convenções da fantasia que regem mundos alternativos, mas há um decisivo aspecto de toca de coelho em como chegamos lá. Presa no tráfego, Aomame decide descer por uma escada de emergência na lateral de uma via expressa de Tóquio, a conselho, estilo David Lynch, de um motorista de táxi ("Por favor, lembre-se: as coisas não são o que parecem") ressoando em seus ouvidos. A recordação de Tengo de um dia com seu pai enfermo num asilo - vívido, mas com "toques de irrealidade nas bordas" - é parecida com a nossa experiência de 1Q84, um lugar que nós, com os personagens, habitamos alertas para seus interstícios obscuros, as passarelas ocultas da vista de todos. Mesmo o corpo de uma garota adolescente pode, numa noite tempestuosa, servir de passagem entre mundos.

 

A chave metafísica de uma obra de Murakami pode ser, amiúde, encontrada na relação entre seus múltiplos mundos. Os capítulos alternados de Hard-Boiled Wonderland, por exemplo, são revelados por uma função da consciência dividida de seu narrador. O mais enervante em 1Q84 é que persiste a dúvida sobre seu status como um mundo alternativo - não fica claro se as pessoas em torno de Tengo e Aomame estão realmente nele, ou conscientes de que estão - refletindo a aparente convicção de Murakami de que é cada vez mais difícil distinguir a realidade da irrealidade. (...) / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

© Bookforum, Dez/Jan, 2012

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