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Sérgio Augusto
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Com o Brasil na cabeça

Mário de Andrade já devia ter sido homenageado na Flip, mas, pelo critério usual das efemérides redondas, ele acabou sobrando para este ano, o septuagésimo de sua morte. Não será tão simples montar, como parece, uma Flip andradina. Fartura de material tanto ajuda quanto atrapalha. Mário não viveu muito (1893-1945), mas produziu como se tivesse vivido cem anos - cem anos de curiosidade, criação, sabedoria e grafomania.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2015 | 02h05

Poeta, romancista, ensaísta, musicólogo, folclorista, epistoleiro compulsivo, ele pesquisou, refletiu e escreveu sobre uma infinidade de coisas, sempre de forma original e com impressionante erudição. Polímata não o define por inteiro. Tenho quase certeza de que ele foi o mais lúcido e abrangente pensador do Brasil e sua cultura.

Como acomodar e aproveitar bem toda aquela sapiência no âmbito de uma feira literária? Só com seus estudos sobre música várias mesas poderiam ser montadas, sem menosprezo de suas achegas à milenar ciência da meloterapia, ou seja, da terapia musical, tema de uma conferência apresentada na Associação Paulista de Medicina, em 1939, de que só tomei conhecimento duas décadas atrás por intermédio do cineasta Eduardo Escorel, que conhece a obra de Mário como ninguém.

Publicada num livrinho de 130 páginas, Namoros Com a Medicina, há muito esgotado, a palestra sobre a força biológica da música vinha acompanhada de um ensaio da maior seriedade sobre os efeitos medicinais dos excretos (urina, bosta de vaca, etc.), com segredos que Mário não aprendeu só em livros científicos mas também no convívio com gente do campo.

Cheguei relativamente tarde à sapiência andradina. Minha geração se ligou antes, e com maior intensidade, ao outro Andrade, Oswald, confrade e rival de Mário, que contou a seu favor com a militância dos antropofagistas tardios, o oba-obra tropicalista e a reedição de sua obra completa pela Civilização Brasileira, em 1970. Outro fator desequilibrante: Oswald era dionisíaco, carnavalesco, porra-louca, fascinante, e Mário, gargalhadas à parte, um intelectual apolíneo. Ademais, Mário morreu muito cedo. Oswald, que entre nós viveu até 1954, teve sua fama reforçada pela badalada montagem de O Rei da Vela por Zé Celso Martinez Corrêa, um ano antes de Joaquim Pedro de Andrade adaptar Macunaíma ao cinema.

Joaquim Pedro, cuja intimidade com a obra de Mário brotou em casa, graças ao pai, Rodrigo Mello Franco de Andrade, criador do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e velho amigo do poeta, foi quem "revelou" o sumo corifeu do modernismo ao pessoal do Cinema Novo. Em épocas diferentes Humberto Mauro e Cacá Diegues pensaram em filmar Macunaíma, mas só Joaquim Pedro logrou concretizar esse desejo. Não consigo imaginar o que Mauro teria feito com a rapsódia andradina. Joaquim Pedro encontrou a embocadura perfeita: uma chanchada pau-brasil.

Sete anos depois, em 1976, Escorel, montador de Macunaíma e também "andradino de família", transformaria a estreia do poeta na ficção, Amar, Verbo Intransitivo, no filme Lição de Amor. A redescoberta de Mário estava consolidada. Mais do que isso: o cinema brasileiro afinal acertara uma velha dívida com o modernismo, e vice-versa.

Como é sabido, a Semana de Arte Moderna não deu bola para o cinema. Cinéfilos havia entre os seus mentores - Menotti del Picchia escreveu roteiros e Guilherme de Almeida virou crítico -, mas a triste verdade é que o nosso cinema, incipiente, defasado, não tinha com o que romper, ao contrário da poesia, da prosa e das artes plásticas tomadas de assalto pelos modernistas. Quatro décadas se passariam até o cinema brasileiro tornar possível uma ruptura, "modernizar-se", com Glauber Rocha, Joaquim & cia. Limite, experiência vanguardista de Mário Peixoto, revelada oito anos depois da Semana, foi uma exceção isolada e de repercussão tardia junto à intelectualidade.

Mário era um cinéfilo de truz. Na adolescência, ia a pé de casa até o Bijou Theatre, curtir os seriados de Pearl White, que no Brasil batizaram de Paulina e Mário insistia em chamar de Pérola White. Seus colegas modernistas também a idolatravam. Americanófilos, babavam com sua rapidez de raciocínio, seu vigor físico, sua alegria - em tudo o oposto da cultuada Sarah Bernhardt. Sarah representava o século 19; White, o século 20, a modernidade em forma de gente. Nem a francesa Musidora lhe fez sombra nas matinês paulistanas.

Embora ainda uma "arte infante" (vide A Escrava Que Não é Isaura), Mário de pronto reconheceu o cinema como um agente transformador da "história moderna das artes", a salvação das manifestações artísticas puras (pintura, literatura), enfim libertas do compromisso de imitar a natureza. Identificou-o como a décima musa, a "musa cinemática", epíteto compartilhado por Jean Cocteau e Alejo Carpentier, que outro ("sétima arte") varreu do léxico universal sem o menor esforço.

Como todo mundo, venerava Chaplin. Ao contrário dos companheiros de tertúlias e boemia, procurava assistir a todos os filmes brasileiros, o que os amigos viam como uma risível excentricidade. Como crítico de cinema da revista Klaxon, órgão oficial do movimento modernista, comentou apenas um filme nacional: Do Rio a São Paulo Pra Casar, uma "tentativa de comédia" de José Medina, lançada em 1921, que tratou paternalisticamente, ressaltando a falsidade dos atores e seus gestos estrangeirados. Torcia pelo transplante da "arte norte-americana" a estas bandas, mas não sua imitação servil.

Mário considerava Amar, Verbo Intransitivo "um romance cinematográfico", menos pela adoção de uma técnica narrativa similar à de um filme do que por suas referências ao cinema. Estrelas de Hollywood, como Tom Mix, Gloria Swanson e Bebe Daniels, são mencionadas ao longo da narrativa; a família Sousa Costa vai duas vezes por semana ao cine República e é numa matinê no Royal Theatre que o adolescente Carlos e Fraulein roçam suas pernas pela primeira vez. Escorel tem um belo ensaio sobre esse e outros aspectos da proximidade de Mário com o cinema, Adivinhadores de Água, que merecia ser tomado como base para uma das mesas da Flip.

Com Escorel dividindo a conversa com Ismail Xavier (autor do primeiro estudo sobre as relações do cinema com o modernismo) e Paulo Antonio Paranaguá, que em agosto publicou um provocativo ensaio sobre o tema (A Invenção do Cinema Brasileiro), estaríamos muito bem servidos.

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