Com muitos aplausos, 'Filmefobia' estréia em Locarno

Kiko Goifman jura que filme de laboratório é fição e ator Jean-Claude Bernadet afirma que é filme ensaio

Rui Martins, especial para o Estado,

12 de agosto de 2008 | 11h51

O brasileiro Kiko Goifman estreou Filmefobia, no Festival de Locarno, com muito público e aplauso. Trata-se literalmente de um estranho filme de experiência em laboratório, no qual se documenta a angústia mostrada por cobaias humanas voluntárias diante daquilo que lhes provoca normalmente medo e pavor.  Existem momentos de muita fobia vivida pelas pessoas que aceitaram viver a experiência e mesmo gritos de desespero diante, por exemplo, de uma jibóia, no contato próximo com ratos, ao ser agarrado por um anão negro e o próprio diretor Kiko Goifman desmaiou ao ver uma profusão de sangue.  Goifman insiste na afirmação de se tratar de um filme ficção, no qual o ator Jean-Cluade Bernardet realiza um documentário. Por sua vez, Bernardet prefere a denominação filme de ensaio.  Essa foi a primeira exibição do filme, inédito no Brasil. Até agora, o filme, cuja montagem terminou há duas semanas, só tinha sido visto pelos integrantes da equipe. A estréia no Brasil está prevista em 2009. "Estou em Locarno pela quinta vez. Meus outros filmes foram projetados numa sala bem menor. O pavilhão Fevi é enorme. Gostei das perguntas feitas pelo público", diz Kiko Goifman. "O filme foi possível graças a alguns apoios europeus e ao edital de baixo orçamento do governo brasileiro", explica. Ficção, ensaio ou laboratório sado-masoquistas "Eu acho que se trata de um filme de ficção com atmosfera de documentário", diz Kiko Goigman, repetindo o que dissera ao público. Por sua vez, Jean-Claude Bernadet critica a necessidade de se definir se é ficção ou documentário, pois essa diferenciação só tem, diz ele, "uma utilidade de classificação e arquivo. Eu considero Filmefobia como um ensaio, que se serve da ficção, do documentário, de matéria biográfica numa espécie de autoficção", acentua. A controvérsia surge diante da provocação do medo em pessoas amarradas, incapazes de reagir ou de fugir diante do causador de sua fobia, mesmo se tinham autorizado previamente a experiência e sua filmagem, mediante pagamento ou pelo desejo de aparecer num filme. O filme pode, por isso, ser considerado como um exercício soft de voyeurismo, já que a provocação do medo é suspensa quando a reação da cobaia chega ao limite do suportável. Uma das cobaias, que não chegou a reagir à sua fobia diante de palhaço, se queixou por ter sido imobilizada e falou em sadismo. Alguém pode assimilar o processo usado pelo filme a um happyslapping, em que geralmente jovens provocam brigas para enviarem por celular as imagens. Outros poderão se lembrar das práticas sádicas de se manter embaixo d´água a cabeça de banhistas na praia ou na piscina, para ver seu desespero ao retomarem a respiração. Um grupo de teatro catalão, Fura des Baus, explora ao máximo o medo entre seus expectadores, que chegam a transpirar em acessos de adrenalina, gritam que querem sair, ameaçados por serradeiras que parecem vir sobre eles. Filmes de terror não têm objetivo senão o de deixarem aterrados os expectadores. A tortura e o medo voluntário Ao ver as pessoas amarradas e submetidas ao medo, muitos podem pensar coisa mais grave - em Guantánamo, DOI-Codi e tortura. Essa hipótese de reação foi submetida a Kiko Goifman e a Jean-Claude Bernardet, já que os policiais utilizam também o medo e suspendem o processo, quando as vítimas desesperadas transmitem as informações desejadas. "O filme abre diversas áreas para pensar", explica Bernardet, "com as cenas vistas e as palavras ditas. Acho que nesta forma de filme, lançamos o verde e deixamos a conclusão com o espectador, abre-se assim a possibilidade de diversas interpretações". Kiko Goifman afirma que o filme dá uma grande abertura de interpretações aos espectadores. Já ouvi por exemplo - diz ele - que o filme tem humor. Pode haver uma associação do filme com mecanismos de tortura, o que poderia levar à interpretação de que Jean-Claude Bernardet é um personagem sádico do filme. As diversas interpretações só enriquecem o filme.  Mas não concordo em se equiparar o filme a uma experiência de laboratório, para mim é um filme de ficção completo e nossa intenção agora é de fazer um Filmefobia 2. Em todo caso, uma coisa é certa Filmefobia não deixará ninguém neutro e sua estréia no Brasil provocará controvérsias.

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