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Com medo e tudo

Não sabemos quando ou como será o fim dessa quarentena, muito menos como será retomar a vida convivendo com a ameaça ainda presente de uma doença sem tratamento nem vacina

Daniel Martins de Barros, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2020 | 03h00

Estávamos no final do século 20, férias de julho. Havíamos nos aventurado a subir a famosa Pedra do Baú, ponto turístico entre Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, na Serra da Mantiqueira. Aventura é modo de dizer – dada a patente inabilidade do grupo em que nos encontrávamos, optamos por um caminho leve para turistas de primeira viagem, apropriadamente chamado de Trilha do Bauzinho.

Ainda assim passei um dos grandes medos da minha vida. Após chegarmos ao ponto em que a maioria parava, alguns de nós resolveram ir um pouco adiante, até a ponta de uma pedra. Não parecia – e de fato não era – uma passagem difícil ou traiçoeira. Mas, no meio do curto caminho, cinco metros, se tanto, resolvi fazer o que sempre ouvimos nos filmes para não tentar: olhei para baixo. Embora estivesse escorado no sólido paredão de rocha à minha direita, à minha esquerda vislumbrei o que me pareceu um abismo. O nada. Pronto para me tragar ao menor tropeço. Meu coração se acelerou, a boca ficou seca e as pupilas dilatadas (embora esse detalhe eu só possa imaginar – não havia tempo para olhar no espelho). Engolindo em seco, segui em frente com medo e tudo, chegado à bendita ponta da pedra.

Ali, vi algo que nunca tinha visto antes, e não lembro de ter visto depois: minhas pernas tremiam a ponto de fazer a calça balançar. Sim, a vista da paisagem também estava ali disponível, e provavelmente era belíssima. Mas minha memória só guardou o registro da perna balançando.

Mas foi ali também que ouvi pela primeira vez sobre a importância do medo. Uma família de alpinistas passou por nós, leve e faceira fazendo o caminho de volta. Todos aparelhados com aqueles equipamentos especiais – o pai levava o filho pequeno, de uns sete anos, amarrado à sua cintura por cordas e mosquetões –, pareciam estar num passeio pelo parque. Vê-los tão tranquilos, passando por onde meu coração quase me abandonara, perguntei se eles não tinham medo.

“Claro que temos medo. O medo é nosso companheiro”, respondeu o pai. “No dia em que perdermos o medo, nós ficamos em perigo.”

Pode parecer óbvio agora. Evidente que o medo é uma proteção. Mas eu era bem mais jovem, estava a quase dois mil metros acima do nível do mar, com vento frio batendo no corpo suado de medo e o coração a mais de cem batimentos por minuto. Nada era óbvio naquele momento.

É como quando estamos no meio de uma pandemia. É bom ter medo. Afinal, existe uma ameaça real ao nosso redor. Pode ser que tenhamos uma parede de rocha sólida para nos apoiar – estamos em casa, temos água, sabão e álcool em gel –, mas ainda assim o perigo está bem perto. Pode ser que tenhamos equipamentos de proteção – máscaras, face shields (aquelas viseiras enormes que mantêm longe de nós os perdigotos alheios – e vice-versa) –, mas, se perdermos o medo, deixamos de tomar cuidado, colocando-nos em risco.

Não sabemos quando ou como será o fim dessa quarentena, muito menos como será retomar a vida convivendo com a ameaça ainda presente de uma doença sem tratamento nem vacina. Mas certamente serão momentos nos quais o medo estará presente. Ainda bem. Avançaremos com medo e tudo.

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