Com livros eletrônicos, hoje o leitor parece menos só

Muita coisa tem sido escrita sobre o poder da tecnologia de conectar as pessoas. Mas enterrar o nariz num livro sempre implica certo isolamento - com a declaração tácita de que o leitor não quer ser perturbado. Mas, e no caso de um aparelho que se assume no lugar do livro?

Austin Considine, The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

"As pessoas estranhas sempre indagam", disse Michael Hughes, membro de Johns Hopkins Bloomberg School de Saúde Pública, em Baltimore, referindo-se ao seu iPad, que usa para ler romances e tudo o que não seja ficção. Ele garante que hoje as pessoas se aproximam mais dele do que quando levava um livro.

"Desconhecidos vão chegando, pedem para ver o aparelho, tocar, perguntam se gosto dele", lembra Hughes. "Isso raramente ocorre com um livro."

Com os preços em queda, as vendas crescem. No mês passado, a Amazon reportou que este ano, até o momento, as vendas do Kindle triplicaram em relação a 2009. Quando a Amazon reduziu o preço do aparelho de US$ 259 para US$ 189, ela vendeu 180 livros eletrônicos para cada 100 impressos.

O hábito da leitura solitária em público pode mudar com a popularidade crescente dessas leitoras. De repente, o leitor isolado no canto parece menos só. Como alguns aparelhos podem exibir livros mantendo, ao mesmo tempo, o usuário online é grande a chance de o velho rato de biblioteca estar também plugado numa conversa, segundo Paul Levinson, professor de comunicações e estudos de mídia na Fordham University.

O rato de biblioteca carrega o estigma de que quando se está lendo ninguém quer se socializar. "Mas a leitora eletrônica mudou isso, já que ela está intrinsecamente conectada a sistemas maiores", observou. Para muitos, esses aparelhos são um acessório necessário. "Hoje, comprar literatura ficou interessante de novo."

Para Debra Jaliman, dermatologista de Nova York, o iPad ajudou-a a acabar com o estigma de ler isolada em público. "Sempre houve certo preconceito com relação às pessoas que ficam sozinhas lendo um livro, mas já não é mais assim com o avanço da tecnologia. Estamos numa era de alta tecnologia e a facilidade e portabilidade do iPad acaba com qualquer ideia negativa associada a uma pessoa lendo um livro isolada dos outros."

Nem todos concordam que os leitores de e-books tornam tornou as pessoas mais abordáveis. Na verdade, em alguns casos prevalece o oposto. Para Jenny Block, escritora e colunista de Dallas, o seu Kindle é um modo mais fácil do que um livro para afastar as pessoas. "Parece que envio a mensagem "não me perturbe"", diz ela, acrescentando que o último livro que leu no Kindle foi Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality.

"E isso é bom. Ele manda este aviso: "Estou habituada a fazer isso; não fique com pena de mim." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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