Com Fernando Sabino em Sete Lagoas

A funcionária da escola voltou-se para a mãe, intrigada:

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2011 | 03h08

- A senhora encheu a ficha de um de seus dois filhos botando a mesma data de nascimento do outro. São gêmeos?

- Gêmeos de pai.

- Gêmeos de pai? Que história é essa?

- São filhos do meu marido - explicou a mãe. Um é meu e um é da outra. Nasceram no mesmo dia, logo, são gêmeos de pai.

2.

Chegando ao hotel, pedi um quarto de solteiro, depois de me certificar do preço. Subi, me acomodei e só então percebi que havia algum engano: o quarto era imenso, com uma cama de casado e duas de solteiro - provavelmente muito mais caro do que eu pretendia. Não tive dúvidas, voltei à recepção.

- Houve algum engano, pedi um quarto simples e o senhor me deu um com três camas.

O homem refletiu um instante e aconselhou-me polidamente:

- Não precisa usar as três: use uma e ignore as outras.

3.

Essas duas minicrônicas não são minhas, são de Fernando Sabino e estão no seu Livro Aberto, páginas que ele reuniu em um volume no fim da vida. Foi a última coisa que publicou, antes de morrer em 2004. Esse era o Sabino observador das mínimas coisas de nosso cotidiano. O cronista que lemos, invejamos e gostaríamos de ser. Conto essas duas historinhas para dizer que elas foram relembradas semana passada em Sete Lagoas, Minas Gerais, durante o Literata 2, um festival inteiro dedicado a ele. Foi minha última viagem literária deste ano, a de número 44, e fiquei contente por ter ido falar de Sabino. Olhem que foi um time considerável que baixou naquela cidade mineira, que se espreguiça em torno de um lago central (disseram-me que dos sete só restam seis) parecido com a Pampulha de Belo Horizonte. Ali se fabricam os caminhões Iveco e foi a empresa que patrocinou o Literata, bela forma de se debruçar sobre cultura.

Num dia, partiam Ivan Angelo e Fabrício Carpinejar e chegava José Eduardo Agualusa. No outro subiu ao palco o Humberto Werneck e no dia seguinte ali estavam João Paulo Cuenca e Paulo Roberto Pires. Depois se debateu com Fernando Paixão e Luciana Villas Boas. E ainda se ouviu cantar Verônica, filha de Sabino, e o jazz de Luis Fernando Verissimo, que também falou, ele que não é disso. Desde o primeiro dia, na primeira fila esteve Bernardo, filho de Fernando, grande como o pai, emotivo, batalhando pela conservação da memória daquele que foi dos nossos cronistas maiores.

4.

Foi graças ao Humberto Werneck, companheiro de crônica, aqui, no Estadão, imperdível aos domingos, que tive esse breve reencontro com Fernando Sabino, semana passada. Falar nisso, deu gosto participar de uma mesa em que Werneck foi mediador, entre Mauro Ventura, jornalista de O Globo e autor de O Mais Triste Espetáculo da Terra, sobre o incêndio de um circo em Niterói, em 1961, tragédia que terminou com 503 mortos, algo inconcebível. Werneck é calmo, não exibido, seguro, repleto de informações, fala, deixa falar, coloca a pessoa à vontade, joga o assunto, tira quando acha necessário, levanta outras bolas. Muitos não sabem, mas existe mediador que não para de falar, dá o show dele no palco, interrompe respostas; e há aquele que fica ouvindo, gostosamente, como se as falas fossem para ele se divertir ou chorar. Pegar um desses é pior, a gente fica perdida, o mediador é o maestro que nos conduz.

5.

Companheiros de viagem foram Ivan Angelo e Werneck. Sente-se no meio de dois mineiros e os casos desfilam. O que eles sabem de histórias, de bastidores, de curiosidades. Bom humor, acima de tudo. Ironias com todo mundo, inclusive para com eles mesmos. Das origens do Jornal da Tarde, o maior refúgio de mineiros que já existiu, até o governo do Aécio. Discordaram um pouco quando o carro, indo de Confins para Sete Lagoas, passou por dentro de Belo Horizonte e cada um achava que a rua era uma, e era outra. De qualquer modo, como cicerones, me contavam sobre este bairro, este restaurante, esta galinha de cabidela, me colocando à vontade. Terei de levá-los a Araraquara para retribuir.

6.

Falar de Sabino foi um reencontro comigo mesmo, com as manhãs de domingo nos anos 50, quando a Manchete chegava à banca do Nelson Rossi em Araraquara e era preciso correr antes que a revista se esgotasse. Era linda a Manchete, colorida, bom papel (diferente daquele papel marrom de O Cruzeiro, esquisito), boas fotos, belas mulheres. Se O Cruzeiro tinha Rachel de Queiroz, a Manchete tinha Sabino, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino. Leituras que o Jurandyr Gonçalves Ferreira, professor de português, modernamente recomendava. Inclusive, ele levava a crônica de Sabino para a aula e comentava, analisava.

O choque que foi O Encontro Marcado em 1956! Todo meu grupo leu, estarrecido, aquela era a nossa história, da nossa geração, nossa revolta contra a família, a religião, a pasmaceira, o provincianismo, a mesmice. Aqueles mineiros eram os mesmos vitelloni de Fellini (Os Boas-Vidas) e os desesperados de Araraquara.

7.

Durante duas horas, ali em Sete Lagoas, nós três contamos nossos encontros com Sabino, as histórias que vivemos com ele ou ouvimos contar sobre. Conheci Fernando Sabino nos anos 70, fizemos algumas viagens juntos por este Brasil. Alto, expansivo, cheio de casos, apaixonadíssimo pelo que fazia, divertido, ainda que tenha morrido na depressão por motivos vários, um deles aquela maldita Zélia, que infernizou a vida de todos nós. Uma vez, perto de Ponta Grossa, Fernando mandou parar o carro diante de um boteco. Entramos, ele perguntou ao dono de que dia eram aqueles pasteis. De hoje, fritei agorinha mesmo, respondeu o homem ansioso para vender. Pena, respondeu Sabino. Se fossem de ontem... O sujeito não podia saber que ele só gostava de pastel amanhecido.

Outra vez, fui encontrá-lo em Curitiba, num hotel, dali partiríamos para o interior. Ao chegar, ele me apresentou um homem magro, de óculos, um tanto soturno, porém simpático. Ao sairmos, Sabino apertou meu braço, disse ao meu ouvido: "Oi, Ignácio, segurei o Dalton Trevisan o tempo inteiro, ele queria muito te conhecer". Mauro Ventura, que já tinha ouvido histórias semelhantes, comentou comigo: "Sabino era um cavalheiro, um diplomata, ajeitava tudo, mineiramente. Quem garante que ele não segurou o Dalton dizendo: Vem vindo aí um escritor louco para te conhecer?"

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