Com dois mestres de Viena

Dois vienenses, duas reedições, 12 volumes. Uma obra enciclopédica de Otto Maria Carpeaux e uma trilogia de Hermann Broch. Carpeaux foi um mestre da crítica literária e Broch, um dos pilares da prosa moderna. Ambos judeus convertidos ao cristianismo, vieram bater no Novo Mundo após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista: o primeiro fincou raízes no Brasil, em 1939, e o segundo, na mesma época, na América do Norte. Carpeaux produziu aqui sua História da Literatura Ocidental, agora reeditada pela Leya em parceria com a Livraria Cultura; Broch escreveu ainda na Áustria os três volumes que compõem Os Sonâmbulos, cuja tradução a editora Benvirá está repondo nas livrarias.

Sérgio Augusto,

03 de dezembro de 2011 | 03h08

 

Embora tenham sido contemporâneos em Viena, que eu saiba, não se conheceram pessoalmente. Robert Musil, Rilke, Elias Canetti - esta era a turma de Broch. Carpeaux conviveu com outros vultos, menores, da cultura germânica, chegou a ser apresentado ao checo Kafka, mas sua mais sólida patota seria mesmo constituída no Brasil, na livraria José Olympio, onde à tarde costumava jogar conversa fora com Aurélio Buarque de Hollanda, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Antonio Houaiss, Herberto Salles e outros menos assíduos.

Enquanto Broch burilava Os Sonâmbulos, entre 1929 e 1932, Carpeaux trabalhou como jornalista independente, casou-se com Helene Silberberg, converteu-se ao catolicismo e mudou de nome: nascido Otto Kerpfen, passou a assinar-se Otto Maria Kerpfen ou Otto Maria Fidelis. O pseudônimo afrancesado adotou-o no Brasil, sua pátria até o fim da vida. Morreu em 1978, com a idade do século.

Foi a pessoa mais culta que eu conheci. Em nosso convívio diário em redações de jornais e enciclopédias, aprendi o que não aprenderia num curso universitário. Graças a ele fui apresentado a Broch, que aos 19 anos, confesso, nem de orelhada conhecia. E através de Broch cheguei a Musil, o outro fundador do romance-ensaio ou "romance gnosiológico", como Broch preferia qualificá-lo, para bem distingui-lo do corriqueiro romance psicológico.

A certa altura do filme A Noite, de Antonioni, o escritor interpretado por Marcello Mastroianni encontrava um livro intitulado I Sonnambuli, cujo autor não dava para identificar. Minha ignorante curiosidade levou-me apenas, que vergonha, ao Sleepwalkers, de Arthur Koestler, que, para minha decepção, nada tinha a ver com a noia burguesa explorada por Antonioni. Os Sonâmbulos, de Broch, tinha. Giovanni Pontano, o escritor de Mastroianni em A Noite, era, a seu modo, um sonâmbulo, a vagar por um mundo que, apesar de economicamente pujante, parecia tão moral e espiritualmente degradado quanto o de Huguenau, o terceiro Schlafwandler de Broch.

A uma afirmação de Thomas Mann ("Hoje em dia, um romance precisa ser mais que um romance"), vale dizer um espelho do homem e da sociedade, ao mesmo tempo ficção, ensaio, tratado científico, obra de história e reportagem, Carpeaux acrescentava: "Só assim o leitor contemporâneo chegaria a acreditar na 'verdade da ficção'". E então entrava na prosa de Broch, destacando Os Sonâmbulos como um dos romances que mais plenamente cumpriram essa exigência e seu autor como, de longe, o mais profundo dos "romancistas de ideias".

A seu lado punha Ulisses (Joyce), Doutor Fausto (Mann), O Jogo das Contas de Vidro (Hermann Hesse) e o ciclo dos Hommes de Bonne Volonté (Jules Romains). Julgava porém sem sentido comparar a "tão singular" obra de Broch com Kafka, Proust, Joyce ou Musil, reconhecendo haver algo de todos nos Sonâmbulos, não porque Broch os tivesse imitado, mas porque a atmosfera de Kafka, Proust, Joyce e Musil faz parte do mesmo panorama.

Mais elucidativa, a seu ver, seria a comparação com aqueles com os quais Broch não se parece. Sua Alemanha de 1880 não é a do "prussiano honesto Theodor Fontane", sua Alemanha de 1905 não é a do "intelectual oposicionista Heinrich Mann". E a decadência dos valores da Alemanha durante a Grande Guerra, motivo de várias digressões ensaísticas do terceiro volume de Os Sonâmbulos (Huguenau ou A Objetividade), não passou pelo mesmo prisma de outros autores daquele período.

Seus três protagonistas (Pasenow, Esch, Huguenau) são "meros joguetes do Espírito objetivo de suas épocas". Broch rejeita o irracionalismo e suas consequências demoníacas e também o racionalismo "que destrói as fontes da vida", buscando um equilíbrio que é o sustentáculo de sua obra. Matemático de formação, como Musil, Broch talvez fosse mais pensador que poeta e tenha buscado na criação literária uma maneira de libertar sua imaginação, de libertar-se, enfim, do que o racionalismo tem de mais constritor.

Eis um canhestro resumo do que Carpeaux discorreu sobre Broch no sétimo volume da História da Literatura Ocidental. Escrita entre 1944 e 1945, por sugestão de José Lins do Rego e a partir de anotações em folhas de todo tipo, inclusive guardanapos de papel, é um tour de force sem paralelos na historiografia literária. Mofou 14 anos numa editora que falira no meio do caminho, até ser bancada pelas Edições O Cruzeiro. Em oito volumes, com 3.760 páginas, cobrindo mais de 8 mil autores, tão grosso era o primeiro tomo, lançado em março de 1959, que, na reimpressão, o transformaram em dois.

Carpeaux dedicou-a ao amigo Aurélio Buarque de Hollanda. O último tomo, com índices e suplementos, chegou às livrarias em 1966. A Alhambra reeditou-a entre 1978 e 1984, mas é a edição original, com o primeiro volume ainda medindo 670 páginas e 6,5cm de largura, que até hoje conservo e consulto, com carinho e devoção.

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