Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

Com avanço da vacinação, as pessoas voltam aos poucos à rotina

De certo que o juízo e as variantes não nos permitem muito, mas uma fresta de normalidade já foi aberta

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 05h00

Voltar aos hábitos e lugares que a pandemia nos privou. Esse tem sido o primeiro desafio de quem, imunizado, começou a se sentir um pouco mais seguro para “sair da toca”. De certo que o juízo e as variantes não nos permitem muito, mas uma fresta de normalidade já foi aberta. E foi por ela, que ainda exige máscara, álcool em gel e distanciamento, que espiamos a retomada de algumas pessoas. Tem quem voltou a frequentar o teatro, as aulas de meditação, os exercícios na academia e muito mais. 

Entre as tantas expectativas sobre o futuro próximo, a maior é: “será que vai ter carnaval no ano que vem?” Mesmo sem uma certeza absoluta sobre o que vai acontecer em 2022, Vitor César Ribeiro Velloso, 39 anos, mestre de bateria da Estrela do Terceiro Milênio, já retomou suas atividades no barracão. 

“Retomei os ensaios aos domingos. Todos de máscara, álcool em gel e distanciamento. Para isso, divido os instrumentos da bateria. Por exemplo, os tamborins ficam do lado de fora, a caixa dentro da quadra e assim por diante”, disse Velloso.

Para o escalonamento de quem vai participar de cada ensaio é exigido uma inscrição prévia e atenção aos avisos no grupo da bateria no WhatsApp. A entrada na quadra não é indiscriminada – e o comprovante de vacinação começou a ser exigido. “Ainda não estamos todos juntos, mas tem sido bem emocionante. No primeiro ensaio, era possível ver a emoção nos olhos de cada um. Uma pena que ainda não podemos nos abraçar”, contou o mestre. 

Assim como em outras atividades, a retomada do mundo do samba não é automática. “A gente voltou um pouco enferrujado. Não tinha como voltar do mesmo jeito. São mais de 200 ritmistas. As pessoas retornam com vontade, mas falta a prática”, disse Velloso. 

Nem só de carnaval vive a retomada, a procura por silêncio e paz interior também já tem tirado algumas pessoas de casa. A estudante de administração de empresas Marina Figueiredo de Castro Araújo, 22 anos, continua tendo aulas de meditação online, mas já voltou à escola de meditação. “Com um treinador na nossa frente, a motivação é diferente. Além das correções na técnica, sabe? Uma puxadinha na perna já faz toda a diferença”, afirmou Marina.

Segundo Marina, as aulas individuais já estão sendo feitas sem máscara, mas mantendo distanciamento (aulas em grupo são feitas de máscara). “É um processo lento, mas estou otimista com a vacinação. Fiquei muito tempo em casa. Agora, já consigo tomar um café na rua”, disse.

Bares, restaurantes e padarias são mesmo a face mais visível (e, muitas vezes, aglomerada) desta retomada. Mas outro nicho que merece atenção são as academias de ginástica. A falta que elas estavam fazendo na vida de muita gente é considerável.

A bancária Marina Tonello Cavalheiro, 27 anos, voltou à academia depois de ser vacinada. “Na minha vida inteira, eu sempre fiz uma atividade física. Com a impossibilidade de treinar, comecei a ter crises de ansiedade. Fui ao médico e ele me recomendou atividades físicas”, disse.

O treino em casa ajudou, mas não teve o mesmo efeito de uma ida à academia. Por isso, Marina voltou assim que começou a se sentir segura. “A máscara incomoda, mas não é nada que você não se acostume. Não a tiro por nada. Além disso, ao entrar e sair de um equipamento, a primeira coisa é fazer a higienização com álcool em gel”, disse. Hoje, Marina treina de segunda a sexta-feira. “Vacinas sempre nos salvaram. Não menosprezei e não menosprezo a pandemia, mas voltar a ter uma rotina é muito bom”, comentou.

Para quem faz atividades físicas, a “memória do corpo” é algo importante. A estudante de nutrição, Giovanna Calixto Garcia Carlini, 21 anos, tem notado essa facilidade na readaptação. “Voltei às aulas de dança. É uma coisa que não se desaprende. É como andar de bicicleta. O corpo logo se acende”, falou. 

Giovanna diz não ter se adaptado às aulas online. Ao voltar ao modelo presencial, confessa ter sentido medo, mas que o sentimento tem se dissipado com o tempo e os protocolos de segurança. “Voltamos com 30% da capacidade, espaço de um metro e meio entre os praticantes, máscara e medição constante de temperatura”, enumerou. 

Cinema e teatro. A vida cultural também tem sido retomada aos poucos. Ir ao cinema ou ao teatro já é algo possível – e feito cada vez com mais segurança. “Fiquei um ano e meio sem ir ao cinema. Assistir em casa, no streaming, não é a mesma experiência. Cinema é experiência. E disso eu senti muita falta”, afirmou o analista de TI Lucas Fugazza, 35 anos. 

Lucas retomou sua vida de cinéfilo depois de tomar as duas doses da vacina e de ver os familiares vacinados também. “Os cinemas estão controlando o número de lugares. E ainda assim estão vazios. Tem a questão do medo e a econômica. Mas espero que tudo volte ao normal um dia”, disse. Lucas completou dizendo que o único momento tenso de uma sessão é quando as pessoas tiram a máscara para comer pipoca. 

Já o oftalmologista Gustavo da Motta Torres, 51 anos, é um aficionado por teatro. Antes da pandemia, ele ia a espetáculos duas vezes por semana. “Uma das coisas gratificantes de uma cidade como São Paulo é a sua vida cultural. Sem ela, a gente perde muito. Eu perdi bastante qualidade de vida sem a possibilidade de ir ao teatro”, contou.

Agora, com a reabertura dos teatros (e vacinado), Motta já viu três espetáculos. A última das peças foi Um Picasso, do Grupo Tapa, no teatro da Aliança Francesa, na região central de São Paulo. “Me senti seguro. Tive que apresentar minha carteirinha de vacinação para entrar. Além disso, tinha distanciamento e o uso de máscara era obrigatório”, lembrou.

“Eu estava em uma clara síndrome de abstinência. Foi como se fosse minha primeira vez no teatro. Não sei se amei a peça ou se tudo o que senti foi por conta da saudade que estava”, comentou Motta. 

Para ele, não faz sentido as pessoas se permitirem voltar aos restaurantes, mas evitarem o teatro. “Não vejo diferença. Aliás, o teatro é mais seguro. Você não precisa tirar a máscara para nada. Espero que as pessoas voltem aos teatros. A cultura tem sofrido muito com a pandemia”, finalizou Motta. 

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