Com a urgência dos sentidos

A cada nova década, o americano William Faulkner, Prêmio Nobel de Literatura de 1949, se torna mais legível. Não apenas boa parte de suas inovações técnicas - frutos da inteligente leitura que fez de Joyce, Mann, Lawrence e Proust, de mãos dadas com uma tradição realista que inclui Balzac, Dickens, Melville e Joseph Conrad - se tornaram gramática corrente, como a gravidade totêmica e imbatível que O Som e a Fúria (1929) e Absalão, Absalão (1936) possuíam começa a se relativizar diante do deslumbre e do enlevo narrativo de seus outros romances e contos. Mais, até: seu humor ferino, sua linguagem rica em ritmos e falas, sua impressionante capacidade para criar atmosferas e seu amor devoto aos personagens, todas essas qualidades que revelam um Faulkner insuspeitado tomam a frente e convidam novos leitores. O lançamento de uma edição brasileira da trilogia Snopes, que reúne os romances O Povoado (1940), A Cidade (1957) e A Mansão (1959), é um excelente pretexto para se abandonar qualquer temor anestésico diante do legado faulkneriano - e mergulhar nele.

VINICIUS JATOBÁ, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h10

Parte da névoa que envolveu Faulkner (1897-1962) nasce de uma peculiaridade de sua trajetória: tirando alguns poemas e artigos para jornais e revistas - muitos escritos na urgência da luta pelos direitos civis na década de 1950 -, sua obra é essencialmente narrativa. São 17 romances e cerca de seis dezenas de relatos. Ponto final.

Não há ensaios dele mesmo que descrevam sua poética nem artigos que indiquem o que se passava em sua mente criativa. As palestras que proferiu em universidades americanas, no auge da fama, falam mais de cavalos e fazendas do que de livros. Sua correspondência poderia ajudar? É farta a que dirigiu à mãe, quando tinha 26 anos e vivia na Europa; mas nessa época, Faulkner ainda não sabia que era Faulkner. O restante de suas cartas lidavam com seus assuntos prediletos: bebida e dinheiro. A maior parte de suas confissões para editores e agentes é financeira. A única vez que ele faz uma confissão de crise criativa é uma mentira: estava trabalhando num livro sobre a história do Rio Mississippi e precisava de dinheiro para terminá-lo. O dinheiro veio; o livro nunca existiu.

Dessa forma, tirando sua interessante introdução à segunda edição de O Som e a Fúria, plágio descarado de um famoso prefácio de Conrad, Faulkner nunca explicou o próprio trabalho. Sua birra diante do desejo que clarificasse sua obra foi lendária. Em uma entrevista à prestigiosa The Paris Review, que a maioria dos escritores usa como um constrangedor espetáculo de autoindulgência, Faulkner responde à provocação de que seus livros eram difíceis na primeira leitura com a sugestão de que os lessem de novo.

O contato com o mundo de Faulkner é realizado sem atalhos - aprende-se a ler Faulkner lendo-o. A sintaxe obsessiva e acumulativa, o encadeamento em elipses, avanços e atrasos bruscos no tempo, os tramos que tergiversam e desviam o foco do arco central, as informações aparentemente inúteis, tudo isso é uma aprendizagem nem tão árdua. Mestres da legibilidade (e artistas excepcionais) como John Le Carré e Elmore Leonard usam a gramática faulkneriana sem jamais alienar seus leitores. O que destaca Faulkner, com a diluição da novidade e radicalidade de suas técnicas, é que no coração do prosado existe um poeta.

Ele usa o manual de Balzac: um universo ficcional comum dentro de um espaço recorrente - o condado de Yoknapatawpha e sua capital, Jefferson -, em que personagens transitam nas diversas narrativas, assumem o protagonismo em um relato e são secundários em outro. Essa estratégia de história ficcional compartilhada de Faulkner fica muito evidente na trinca de romances O Povoado, A Cidade e A Mansão, que explora as vicissitudes do clã Snopes desde que eles chegam ao cenário da narrativa como imigrantes até uma posição econômica e política central no condado. A trilogia é o nó central de um enfrentamento vivaz do "Sul Profundo" que Faulkner realiza em sua obra. Um espaço crivado pelas cicatrizes da Guerra Civil, que acarretou a derrocada das poderosas famílias aristocratas da região, cuja ordem agrária é desarticulada e destroçada.

Como em Balzac, todas as classes sociais estão retratadas, com suas origens, falas e profissões. Faulkner se dedicou em narrar a história privada do Sul dos Estados Unidos, - é possível reconstruir o imaginário da região por meio de sua obra. Está tudo lá: o drama da casa desfeita pela guerra (The Unvanquished, 1938), a honra masculina maculada pela covardia (O Som e a Fúria, e O Urso, 1942), a misoginia e perversão e violência sexual (Sartoris, 1929, e Santuário, 1931), a tragédia suicida da miscigenação (Absalão, Absalão, Luz em Agosto, 1932), a árdua integração dos negros (e índios) em um mundo pós-abolição (Go Down, Moses, 1942),a imperiosa força da natureza (O Velho,1939), a modernização da economia e seus impasses (como se vê nas páginas da trilogia Snopes), e a mágica mitologia do rio Mississippi (Os Invictos, 1962).

Faulkner se estende de pé nesse universo febril que agoniza com os coronários, mesmo décadas depois, do conflito entre os valores aristocráticos e latifundiários do Sul com aqueles liberais e democráticos do Norte. Isso fica ainda mais evidente na magistral saga dos Snopes.

Em O Povoado, Will Varner contrata para trabalhar em sua fazenda Flem Snopes, um forasteiro que, tão logo chega à capital do condado, chama a atenção dos habitantes por sua personalidade. Faulkner conta uma jornada dupla: a decadência de Varner, um todo-poderoso local, cuja fazenda perde o vigor após a Guerra Civil, e a ascensão e danação de Flem Snopes, que ao fim do romance se torna um influente vendedor de cavalos, mesmo que para isso precise trair parceiros comerciais na cidade.

Quando, quase duas décadas depois, o autor retomou o universo da família Snopes, em A Cidade e A Mansão, recuperando como narradores três personagens queridos - VK Ratliff, Chick Mallison e Gavin Stevens -, há o mesmo senso de macabro e de vício que domina O Povoado. O ficcionista, entretanto, já decantara seu estilo de tal forma que abriga um senso de humor que alcançará seu cume em Os Invictos.

No final de A Mansão, Flem paga pelos crimes cometidos em O Povoado, reforçando o mote essencial do universo de Faulkner de destino e fatalidade. Contudo, o gosto que fica no boca do leitor é mais generoso, uma vez que a fatura de sentimentos que Faulkner abriga ao fim de sua trajetória são mais francos e diretos - o melhor da tradição realista potencializada pela urgência dos sentidos.

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