Com a 'tinta da melancolia'

Por que Philip Roth, o húngaro Imre Kertész, Nobel de 2002, e outros decidiram parar?

ANTONIO GONÇALVES FILHO - O Estado de S.Paulo,

17 de novembro de 2012 | 10h23

Após ter confirmada a sua aposentadoria como escritor, o norte-americano Philip Roth foi seguido na última quarta-feira pelo Nobel de Literatura de 2002, o húngaro Imre Kertész, tradutor de Nietzsche, Dürrenmatt e Schnitzler, o que, se não explica sua decisão de abandonar as letras, ao menos indica ser o pessimismo uma das causas dessa desistência. Por que, afinal, continuar escrevendo num mundo que decretou a falência do humanismo, trocou a realidade pela imagem virtual dos computadores e onde os poucos autores que importam praticam literatura autorreferente? Há, claro, o problema da idade. Roth tem 79; Kertész, 83. Se ela não significa impedimento para um autor sem sinais de decrepitude, a fadiga pode ser outra resposta para a decisão de não escrever mais livros. Mas, então, como explicar que o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) tenha passado à história, ainda jovem, aos 32 anos, como um dos primeiros casos conhecidos de bloqueio criativo? (uma das hipóteses para a renúncia literária tanto de Roth como de Kertész).

Coleridge, especulam os ensaístas, pode ter sido vítima de transtorno bipolar, condição desconhecida no tempo em que viveu, agravada pela dependência de ópio. Um livro, Touched With Fire: Manic-Depressive Illness and the Artistic Temperament (1993) da psicóloga norte-americana Kay Redfield Jamison, aliás, defende que maníacos depressivos assinaram a melhor poesia produzida entre os séculos 18 e 20 (seria o uso criativo da "tinta da melancolia" machadiana). A depressão pode ou não ser o caso de Roth ou Kertész, mas o primeiro diz que não escreve há três anos e parou - "por cansaço" - de reler em ordem reversa os livros que publicou. Kertész encerrou a carreira de ficcionista ao dar por resolvida sua problemática relação com o judaísmo e o Holocausto, questão abordada em seus livros, em especial Sem Destino (que trata da experiência de um garoto de 15 anos num campo nazista) e Liquidação (sobre a possibilidade da criação artística depois de Auschwitz).

Seu tema, diz, é a liberdade de se autodefinir, o que, segundo Kertész, se resume à simples noção de que todo membro da sociedade tem o direito de ser o que é. Parafraseando o dictum de Montesquieu - ser humano, antes de ser francês -, Kertész escreveu, num ensaio para o jornal inglês The Guardian, ao ganhar o Nobel, que, antes de ser judeu, é humano. Foi para se reconciliar com o judaísmo que elaborou um projeto literário capaz de traduzir esse credo: Auschwitz, para o escritor, não foi um acontecimento excepcional, mas a verdade ordinária e definitiva sobre a "degradação humana na modernidade". Na última quarta-feira, deu por encerrada sua obra, que dialoga com a filosofia pessimista de Schopenhauer e a literatura desencantada de Albert Camus e Thomas Bernhard.

Roth disse, como se lê ao lado na entrevista à revista Les Inrockuptibles, que não pretende escrever uma única linha nos próximos dez anos. Sabe-se que ele se dedicava a um livro de não ficção (que permanecerá, assim, inconcluso), no lugar de voltar à ficção e ao alter ego Nathan Zuckerman . Personagem metafictício visto pela nona e última vez em Fantasma Sai de Cena (2007), Zuckerman, sofrendo de um câncer na próstata, surge no livro deprimido e vivendo isolado no campo. Só sai de lá para Nova York em busca de reconciliação com as ex-mulheres e o passado. Roth fala da velhice do outro, mas é da própria que trata. Distanciando-se de suas raízes judaicas, Roth, judeu secular, fez de sua literatura uma ponte entre ficção e autobiografia, um acerto de contas com o meio burguês em que foi criado (como no primeiro livro, Adeus Columbus) e a sexualidade perturbada dos jovens americanos dos anos 1960 (no satírico Complexo de Portnoy).

Na releitura que promove de sua obra, ele retrocedeu a Portnoy e ficou um tanto decepcionado com o retrato do garoto que relata ao analista sua agitada vida sexual de onanista. Deve continuar a releitura, mas, como afirmou, parece agora mais interessado nos clássicos Dostoiévski e Conrad. Isso pode ser bom, se Roth não sofrer da esquisita síndrome descrita por Enrique Vila-Matas em O Mal de Montano, romance em que o espanhol fala de um escritor fictício - o jovem Montano do título -, empenhado em descobrir a razão de vários autores terem sido vítimas de uma súbita inabilidade para a literatura, entre eles o poeta Coleridge e o romancista E. M. Forster. Em outro livro, Bartleby & Cia., o narrador de Vila-Matas está "bloqueado" há 25 anos. Quando decide romper o silêncio, volta-se para outros autores que pararam igualmente de escrever. Por que o cultuado mexicano Juan Rulfo deixou para trás a literatura, a despeito do enorme sucesso de Pedro Páramo?

A pós-modernidade de Vila-Matas permite associar esse bloqueio de escritores como Rulfo e Forster ao medo de não estar à altura da própria obra, como parece insinuar a "releitura" de Roth de seus livros antigos e o extremo apego aos clássicos. O narrador de O Mal de Montano, por exemplo, recebe constantemente a "visita" de F. Scott Fitzgerald (outra vítima, famoso aos 20, bloqueado aos 40), que se infiltra em sua cabeça e em seus livros, paralisando o autor. Teria a literatura de Vila-Matas também um caráter parasitário, ao reciclar o que de melhor se produziu no passado? Angústia da influência é comum entre escritores, como já escreveu o crítico literário norte-americano Harold Bloom, mais isso não paralisou Roth no passado, a despeito da forte presença de Saul Bellow, J. D. Salinger e Bernard Malamud em seu imaginário. Tampouco os jovens escritores influenciados por Roth - sendo o mais notável Jonathan Franzen - deixaram de produzir por causa dele.

No entanto, E. M. Forster passou os últimos 46 anos de sua vida sem escrever - e não foi por causa dos outros, mas por medo dele mesmo. Em 1924, depois de publicar com êxito Passagem para a Índia, veio o silêncio. O diário descoberto após sua morte revela que Forster, após perder a virgindade para um soldado no Egito, já na casa dos 30, não se sentia mais apto a escrever sobre os temas que o consagraram, como a vida da classe média inglesa. No entanto, tinha vergonha de perder a respeitabilidade e publicar livros sobre sua condição - e ser preso, pois relações homossexuais eram ilegais na Inglaterra até 1967. Tanto que Maurice, seu romance gay, só foi publicado após sua morte.

Hoje, autores depressivos são tratados com Prozac, Ritalin e outras drogas. No passado, curiosas teorias pretenderam explicar por que escritores abandonam a literatura, como a do médico vienense Edmund Bergler (1899-1962), que cunhou a expressão "bloqueio criativo" em 1947. Freudiano, ele argumentou que o "masoquismo oral" dos autores leva à paralisação (ele analisou 40 casos antes de chegar a essa conclusão). Por repudiar o leite materno na infância, o escritor adulto escolheria novamente passar fome, para se punir. Na era pós-Berger, o problema da esterilidade criativa parece ser outro. A crer em Philip Roth e Imre Kertész, o problema não é tanto como criar, mas por que criar num mundo autodestrutivo.

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