Com a força dos orixás

A cantora Angélique Kidjo, do Benin, abre amanhã o Carnaval Multicultural do Recife

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO / RECIFE, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2012 | 03h09

Há anos o percussionista Naná Vasconcelos vem querendo trazer artistas africanos para a abertura do Carnaval Multicultural do Recife. Eis que seu desejo se realiza na 11.ª festa em que rege as nações de maracatu.

Amanhã sobe com ele ao palco a cantora Angélique Kidjo, do Benin, além de um dos ramos da franquia americana Stomp, de percussão e dança. Uma das cantoras e compositoras africanas de maior repercussão internacional, embaixadora do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) desde 2002, Angélique, que também é atriz, dançarina e produtora, já está no Recife e passou pelo ensaio de Naná com os maracatus anteontem à noite no Marco Zero.

Ainda não foi definida como será sua apresentação, se cantará com as nações de maracatu, mas ela adianta que vai mesclar canções africanas de seu repertório e outras inspiradas na música brasileira. Está empolgada: "Todo mundo me disse que o Recife tem o melhor carnaval do Brasil, então quando fui convidada para vir falei: 'Sim, vamos nessa'", comentou.

Esta não é a primeira vez que Angélique visita o País. Em 2009 esteve no festival Back 2 Black, no Rio, e fez dueto com Margareth Menezes.

Outra baiana, Daniela Mercury, contribuiu para que ela se tornasse mais conhecida no Brasil quando gravou uma versão de Batonga, um dos hits de Angélique, em 1994. Pelo menos dois de seus álbuns recentes - Oyaya! (2004) e Black Ivory Soul (2002) - têm influência de música brasileira e colaboração com músicos daqui. Ela e Naná já dividiram o palco num festival organizado por Peter Gabriel na Inglaterra.

A música do Benin, bem como os ritmos negros brasileiros, e em particular o maracatu, têm forte ligação com o candomblé. Angélique transita entre uma e outra. "Não sou uma pessoa muito religiosa, mas sinto que o candomblé é uma religião de liberdade em meu país. É uma celebração todo ano em janeiro, quando festejamos nossos orixás. A música do candomblé é usada no samba no Brasil. É importante saber disso com orgulho. Sempre há um lado espiritual na música. Sem espiritualidade não há música e não há vida."

A partir do final da década de 1990, Angélique decidiu explorar a música da Diáspora, daqueles que "deixaram a terra natal relutantemente, mas nunca esqueceram a riqueza de sua cultura". "Venho contando histórias da escravidão por meio da música. Era um projeto que compreendia três capítulos: primeiro nos Estados Unidos, depois no Brasil e em seguida, Caribe e Cuba. Contar essa história do ponto de vista musical foi uma jornada surpreendente para mim", diz. "Descobri a resiliência de minha gente e sua capacidade humana de sobreviver mantendo a dignidade por meio do respeito a sua cultura. Conheci e cresci na música desse mundo e com a música brasileira. Aprendi muito. Amo os ritmos e a beleza das melodias da música brasileira. É fascinante."

Para Angélique, o fato de o povo negro estar entre os mais pobres no Brasil é "realmente triste" para um país tão grande "que quer fazer parte das maiores nações do mundo". "A escravidão foi banida, mas sua história ainda afeta as populações. Por que não são dadas aos afro-brasileiros as mesmas oportunidades? Como embaixadora do Unicef tenho certeza de uma coisa: temos de fazer tudo que for possível para educar e dar chances iguais a cada um. Senão não erradicaremos a pobreza e não daremos fim às tensões sociais. Queremos um mundo pacífico? Queremos alcançar um desenvolvimento global justo? Sei que foram feitos muitos progressos nos anos recentes. Temos de manter a tendência", afirma. "O dia em que não houver mais favelas então eu vou dizer que o Brasil é o melhor país do mundo."

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