Com a corda toda, seu nome é Aleijadinho

Livro, que será lançado hoje, esmiúça o processo de criação do trabalho mais recente do luthier Saulo Dantas-Barreto: um violoncelo inspirado no escultor

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2010 | 00h00

Minúcias. Em seu ofício, Saulo arrisca inovações técnicas respeitando a tradição da luteria

 

 

Não é de hoje que luthiers brasileiros - artesãos que criam instrumentos de cordas com caixa de ressonância - ganharam respeito e credibilidade não só no Brasil como no exterior. Mesmo que a aqui no País a luteria não seja tão difundida e não tenha criado tradição e escola, há profissionais que podem ser classificados como verdadeiros artistas, fabricando instrumentos para os melhores músicos do mundo. É o caso do pernambucano Saulo Dantas-Barreto, que teve um recorte de seu ofício retratado pela jornalista Marcia Glogowski no livro Aleijadinho, o Violoncelo - A Luteria de Dantas-Barreto (Alaúde, 88 págs., R$ 92), que será lançado hoje, na Livraria Cultura (Conjunto Nacional).

A obra, que ficou pronta em 2008, com edição bilíngue (português e inglês), mostra todo o processo de fabricação do violoncelo Aleijadinho, instrumento com ornamentação inspirada no escultor brasileiro, e que foi apadrinhado pelo violoncelista Antonio Meneses, respeitadíssimo no mundo inteiro e professor do conservatório de Berna, Suíça.

Há puristas que podem até torcer o nariz para os instrumentos feitos por Dantas-Barreto no que diz respeito às inovações estéticas, como o luthier já havia realizado com os violinos Floresta do Amazonas e Mata Atlântica, mas que acabam se rendendo à qualidade do resultado sonoro conseguida pelo artesão. "Eu destaco no livro que, neste aspecto, o trabalho do Saulo é mais tradicional do que parece, ele é super rígido naquela receita de criar um instrumento. O que ele cria é para potencializar o som, como a barra harmônica curva, que vemos no Aleijadinho. Ele faz a inovação técnica, mas mantém a tradição. O trabalho do Saulo ensina muita coisa aos luthiers brasileiros, que já têm sensibilidade de artistas, mas carecem da disciplina necessária para esse tipo de profissão", diz Glogowski.

Medaglia. Além do trabalho de Dantas-Barreto em si, como as técnicas para preservar o instrumento em caso de manutenção, a feitura da ornamentação pela técnica da marchetaria, como se fosse uma tatuagem no violoncelo, o livro - com fotos de Niels Andreas - tem prefácio do maestro Júlio Medaglia, um capítulo introdutório contextualizando a história da luteria no Brasil, e outro no fim contando a trajetória do violoncelo, instrumentos feitos anteriormente pelo luthier e curiosidades como cartas enviadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a Dantas-Barreto em agradecimento ao reconhecido trabalho realizado por ele em países no exterior.

Com o livro, Marcia Glogowski, que trabalhou no Estado por 30 anos, não sonha apenas com uma difusão da luteria no País, mas também da música clássica como um todo. "A luteria é área desconhecida, mas que existe. A ideia é que o Aleijadinho se torne um instrumento que desperte o interesse pela música erudita para todo mundo. O objetivo do livro é também um pouco isso, o Brasil tem de ser também um berço de música erudita porque tem talento. Gostaria que o livro ajudasse a luteria a se desenvolver no Brasil, seria um sonho realizado", comenta a autora.

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