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Com a benção de Chico

Quem canta com Chico Buarque pode até ganhar um ilustre admirador, mas nem sempre chega ao sucesso

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Todas elas querem Chico Buarque. Esse folclore em torno das fãs daqueles olhos verdes continua intenso também entre as cantoras. Mais do que qualquer outro compositor contemporâneo, ele tem um longo histórico de duetos com vozes femininas. Alguns resultaram em momentos antológicos (leia abaixo), outros, longe disso. As mais novas contempladas com o aval de Chico são Thaís Gulin e Rita Gullo. Só na década de 2000, além de homens e cantoras veteranas consagradas, ele trocou impressões com as jovens e/ou desconhecidas Roberta Sá, Marina de la Riva, Paula Santoro, Fernanda Porto, Nilze Carvalho, Telma Tavares, Mart"nália, Marianna Leporace, Branca Lima, Cristina Saraiva, Cecília Leite, Liv Moraes e até Babi Xavier.

Ter a participação de um medalhão, mesmo sendo ele Chico Buarque, obviamente não é garantia de consagração. E muitas dessas cantoras continuaram restritas ao seu círculo mesmo depois do "efeito Chico". Outras já vinham bem encaminhadas por si próprias, têm afinidade natural com ele e nem pensaram em tomar esses encontros como ganchos comerciais. As assessorias de imprensa em geral costumam fazer alarde desse suposto aval do compositor, mas contra a corrente de simpatia pesa o argumento: "Mas o Chico gravou até com a Babi. Não dá pra confiar em tudo que ele aposta."

Agora, especula-se o namoro dele com Thaís Gulin. A assessoria da cantora (a mesma de Chico) informou que nem um dos dois iria falar com o Estado para esta reportagem, provavelmente para evitar tocar no assunto do romance, que sites de fofoca e colunas sociais vêm explorando. Isso só alimenta o mito em torno dos critérios de Chico.

Há quem justifique essa disposição como generosidade irrestrita. "Chico não sabe dizer não", comenta um produtor. De fato, as cantoras entrevistadas são unânimes em ressaltar esse aspecto dele. "Já tinha escolhido gravar A Mulher de Cada Porto e precisaria de alguém para cantar comigo. Achei que não custava nada tentar o Chico. Meu pai (o escritor Ignácio Loyola Brandão) é conhecido dele e fez a ponte. Ele foi muito gentil", encanta-se Rita Gullo.

Roberta Sá escolheu Mambembe, uma canção significativa para celebrar seu momento encantado de "descoberta do exercício do artista" e quis incluí-la em seu primeiro DVD, Pra Se Ter Alegria, e também pensou que só faltaria Chico cantar com ela. "Chico topou na hora e isso é de uma importância enorme para a minha carreira. Quem não quer ter Chico em seu disco?" Roberta, porém, mantém a discrição habitual e não usou o privilégio para se promover. "Minha intenção nunca foi chamar a atenção do público nem de Chico nem dos outros convidados. Não é por aí."

Como dizem Rita e Roberta, fãs do compositor, o "efeito Chico" pode ser muito bom ou muito ruim, pela expectativa que pode gerar nas próprias cantoras. "Para mim foi um presente, começar na música profissionalmente com participação de Chico porque sempre o admirei, agora não adianta isso se você não é honesta com o trabalho, se não tem uma qualidade", observa Rita. "O encontro é sempre positivo se houver um enriquecimento para a história da pessoa, às vezes funciona, às vezes não", diz Roberta.

Outra praia. Ao mostrar a Chico seu trabalho para a trilha do filme Cabra Cega, Fernanda Porto ganhou a simpatia do autor de Roda Viva, que topou fazer um dueto com ela na canção. Foi algo inusitado, já que Fernanda colocou Chico na praia do drum"n"bass, levando sua música a um nicho inesperado. "João Marcelo Bôscoli disse que foi a primeira vez que a rádio Jovem Pan tocou Chico Buarque por causa dessa gravação", lembra a cantora. "Na verdade ele estranhou quando foi gravar, porque antes tinha mostrado para ele um arranjo de maracatu, mas acabou gostando."

Se os fãs de Chico aprovam tais investidas não vem ao caso. A maioria nem se interessa pelas composições mais recentes dele e, como se constatou na turnê de Carioca, só quer saber dos clássicos para cantar junto. Há casos comprovados de outros "padrinhos", como Zeca Baleiro, cujos fãs não demonstram muito entusiasmo sobre quem eles apoiam. Quem cola agora em Ivete Sangalo e Maria Gadú, as bolas comerciais da vez, corre o mesmo risco.

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