Com 2 ficou melhor

Naquele domingo, 6 de abril de 1986, o logotipo da Ilustrada, o suplemento diário de cultura e artes da Folha de S.Paulo, apareceu imitando as letras caligráficas do logo da Coca-Cola. Naqueles tempos remotos, fazer uma brincadeira com a marca de uma seção de um jornal influente não era coisa corriqueira (como ocorre hoje com o logotipo do Google, para citar um exemplo) e, em redações que nem sonhavam com os Macintoshs, também não eram coisas fáceis de se fazer. Mas havia outra coisa incomum na Folha daquele domingo. No alto da coluna esquerda da primeira página do jornal, via-se uma chamada, maior do que as regulares, para as atrações da Ilustrada: textos de Jorge Luis Borges e Fernando Sabino, entrevista com a escritora Patricia Highsmith, a coluna de Jô Soares - que, naquele tempo, ainda não tinha o seu talk-show televisivo.

Matinas Suzuki,

06 Abril 2011 | 06h00

 

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Também não era rotineiro, há 25 anos, que um grande jornal noticiasse mudanças no jornal concorrente. No rodapé da capa da Ilustrada - embaixo da bem escrita reportagem sobre o centenário da Coca-Cola, do então repórter da sucursal do Rio da Folha, Sérgio Augusto (hoje colunista do Estadão) - lia-se: "O Estado lança seu caderno de variedades". Nessa matéria de pé de página residia o motivo não revelado da chamada mais longa da primeira página da Folha - a ideia era vender uma edição de peso da Ilustrada em um domingo especial para a história do jornalismo cultural em São Paulo. Pelo conteúdo dessa matéria se poderia, também, perceber (ainda que de maneira cifrada) os motivos que levaram o caderno da Folha a utilizar um logotipo imitando o da Coca-Cola. A partir daquele domingo, a Ilustrada, o caderno cultural que era a referência da primeira metade da década de 1980, passaria a ter diariamente um concorrente direto.

Até então, fazer a Ilustrada era algo bastante prazeroso (e trabalhoso), mas uma atividade sem concorrência. Na grande imprensa paulistana, o Jornal da Tarde - que, com o seu renovador jornalismo de serviços, havia dominado os anos 1970 na capital paulista -, por diversos motivos, estava perdendo o poder de radiação. No Rio, o Jornal do Brasil ainda não havia iniciado o processo de revitalização do mítico Caderno B, em um de seus últimos suspiros. A imprensa alternativa (Pasquim e Opinião foram influências importantes para a minha geração, que pegou o diploma universitário no momento da redemocratização do País) deixava de ter influência à medida que o Brasil retomava a sua vida institucional. E o Estadão não tinha o que se chamava à época de caderno de variedades ou de segundo caderno. A Ilustrada estava livre para fazer suas estripulias, suas provocações e para inovar.

Foi com mal disfarçada preocupação, com muita vontade de partir para a briga e com o nariz empinado de certa arrogância juvenil - afinal, o Estadão rompia com a sua própria tradição para criar um suplemento concorrente da Ilustrada - que recebemos a chegada do Caderno 2. Quem ler a reportagem da Ilustrada sobre o lançamento do suplemento cultural do Estadão notará o tom de olímpica superioridade. A ideia por trás do logotipo Ilustrada/Coca e da matéria sobre o refrigerante era nos nivelarmos por cima: nós, ilustrados, fazíamos a n.º 1, a maior, a original, a Coca que dominava o mercado; ao concorrente que chegava, tentávamos, numa manobra tão autocentrada quanto incompreensível para a maioria do público, imputar a imagem de Pepsi-Cola, de n.º 2 (o nome do caderno ajudava nisso), de imitadores.

A conversa entre Caetano Veloso e Chico Buarque, o destaque da primeira edição do Caderno 2, que nos pareceu uma pauta mais ou menos óbvia naquele momento, tem hoje mais interesse e relevância cultural que a história da Coca-Cola, por mais que tenha sido bem contada por Sérgio Augusto. A partir daí, tudo mudou. Se estivéssemos em família, seria como a chegada indesejada de um irmão mais novo que vai dividir a atenção dos pais (leitores). Concorrência dói. Mas é também desafiadora e leva à procura incessante de se fazer o melhor. Creio que o último quarto de século, tecido na concorrência diária com o Caderno 2, foi mais saudável para a Ilustrada do que aquele breve período em que reinávamos sozinhos. E São Paulo passou a ter o privilégio de ser uma das poucas cidades do mundo que ainda preservam dois cadernos diários de qualidade dedicados à cultura e à diversão. Nos últimos 25 anos, a cidade ganhou em diversidade, em difusão de ideias e em enriquecimento do seu jornalismo cultural.

 

MATINAS SUZUKI JR. É DIRETOR EXECUTIVO DA COMPANHIA DAS LETRAS E EDITAVA A ILUSTRADA QUANDO O CADERNO 2 FOI LANÇADO

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