Colosso do Tâmisa

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Primeira frase do romance histórico Um Conto de Duas Cidades e uma das aberturas mais conhecidas da literatura ocidental, nela Charles Dickens se refere aos idos da Revolução Francesa, principal pano de fundo de um mundo à deriva entre a sabedoria e a insensatez, a crença e a incredulidade, a lucidez e a ignorância, a esperança e o desespero. Contrastes ainda vivos nas duas cidades, Paris e Londres, 70 anos depois da queda da Bastilha, lamenta o escritor, reiterando a atualidade do seu romance.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h12

Bicentenário desde terça-feira, Dickens continua, feliz e infelizmente, atual. Ganância financeira, roubalheira endêmica, mutretas no sistema bancário, promíscuas relações do capital com o poder público, falências fraudulentas, iníqua distribuição de riquezas e justiça - essas e outras mazelas da sociedade vitoriana expostas em sua obra não só não foram extintas como ressurgiram quatro anos atrás, com redobrado vigor e em escala mundial. Até o golpe do Madoff, que já era um up date do "esquema Ponzi" do início do século passado, Dickens antecipou na segunda metade do século retrasado. Merdle, o banqueiro arrogante, inescrupuloso e onipotente de A Pequena Dorritt, já fazia na City de Londres o que a Lehman Brothers "aperfeiçoaria" 150 anos mais tarde.

Ainda assim Dickens não se enquadra entre os escritores proféticos; foi apenas um observador percuciente e crítico da Inglaterra pós-revolução industrial, o Balzac de Londres, não o H.G. Wells do laissez-faire capitalista.

Embora atacasse de forma implacável quase todas as instituições britânicas, inclusive o Parlamento, jamais questionou o sistema. Bernard Shaw considerava A Pequena Dorritt "um texto mais sedicioso" que O Capital, de Karl Marx, sobretudo porque consumido avidamente por todas as classes sociais e todas as idades, dos dois lados do Atlântico. Dickens, porém, não se batia pela "expropriação dos expropriadores" nem cabia bem no papel, que lhe atribuiu Chesterton, de paladino das massas oprimidas. O que não impediu que Thomas Macaulay, num momento de infelicidade, se recusasse a resenhar Tempos Difíceis por discordar do "mal-humorado socialismo" do livro. Lenin achava Dickens demasiado sentimental.

Nem mal-humorado, nem socialista, Dickens tinha pânico de agitações de rua, temia a violência da patuleia, a histeria revolucionária e os atos de vandalismo que costumam acompanhá-las. Justificou, de certo modo, o "reinado da guilhotina" por acreditar que os aristocratas franceses afinal colheram o que plantaram. Romanceou a queda da Bastilha e os Anos de Terror sem o parti pris de O Pimpinela Escarlate, embora tivesse tirado todas suas informações sobre a Revolução Francesa do estudo histórico de Thomas Carlyle.

Dickens sentia sincera e intensa pena dos pobres; queria que eles fossem tratados com dignidade; mas nunca sequer insinuou que devessem tomar o destino em suas próprias mãos, e muito menos destruir a ordem estabelecida. Sua crítica à sociedade era quase que exclusivamente moral. Acreditava que o mundo seria decente se os homens se comportassem com decência. Podiam até ser ricos, desde que também de ouro fossem os seus corações. Pickwick, os Cheerybles (de Nicholas Nickleby), Chuzzlewit, o Boffin de Our Mutual Friend - há bem mais do que dois ou três ricos generosos na galeria de personagens de Dickens.

Era, em suma, um burguês rebelde, subversivo, mais atento à perversa burguesia comercial londrina (e seus apêndices: advogados, negociantes, contadores, caixas de banco, pequenos artesãos, etc.) do que à classe operária. Seus proletas, em geral, só provocam pena ou risos; Bill Sikes (de Oliver Twist) rouba, Sarah Gamp (a enfermeira e parteira de Martin Chuzzlewit) enche a cara, Sam Weller (o criado do Sr. Pickwick) é um misto de Jeeves e Sancho Pança. Suas crianças sofrem mais em escolas e internatos do que dando duro em fábricas. Seus heróis, como bem notou George Orwell, são finos cavalheiros de "mãos macias": Nicholas Nickleby, David Copperfield, Martin Chuzzlewit, Edward Chester (de Barnaby Rudge), John Harmon (de Our Mutual Friend).

Dickens não criou uma obra, criou, se me permitem o clichê, um mundo. Mesmo quem nunca leu um só de seus romances - ou leu apenas o inevitável Um Conto de Natal - conhece ao menos de nome, quando não de façanhas, as figuras de David Copperfield, Oliver Twist e Nicholas Nickleby, fartamente replicadas por outros meios ou mesmo adotadas como apelidos artísticos e marcas comerciais. Little Nell virou nome de dançarina na Austrália e hotel e clube de jazz no Colorado; Tiny Tim, o pirralho de Bob Cratchit em Um Conto de Natal, "ressuscitou" cantor folclórico americano nos anos 1960; o usurário Scrooge inspirou o Uncle Scrooge de Disney, aqui chamado de Tio Patinhas.

O mais inglês dos escritores, suas histórias, publicadas em capítulos e repletas de criaturas fabulosas, situações melodramáticas e divertidas, eletrizavam tanto ou mais que os folhetins eletrônicos de hoje. Hordas de americanos acorriam ao cais de Nova York para saber, através dos navios que chegavam da Inglaterra, se a pequena e desvalida Nell de Loja de Antiguidades ainda estava viva.

Bem medida, sua influência, direta ou indireta, abrange desde Victor Hugo até Kafka (cujo Castelo muito lembra o tribunal de Casa Desolada) e T.S. Eliot (o Tâmisa de Our Mutual Friend deságua no Tâmisa de The Waste Land), passando por Dostoievski, Conrad e Robert Walser. Um fenômeno literário sem precedentes.

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