Colombianos bombásticos, pernambucano arretado

Usar sons da periferia para fazer música elaborada é um jogo arriscado que pode soar falso, mas quando dá certo, traz ao som o impulso de hits curtidos e desenvolvidos na competição natural de camelôs. Essa sabedoria das massas é a força motriz do grupo colombiano Bomba Estéreo, que fez um dos melhores shows do festival SWU, no domingo, transformando a tenda Oi em um grande baile funk com sua mistura de eletro e dub com cumbia, champeta, reggaeton e outros ritmos da América Central (a banda toca no Sesc Pompeia na quinta).

, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

A cara do grupo é a cantora Liliana Saumet, que desfere rimas invocadas e críticas sociais contundentes. "Falo sobre política. Falo sobre amor. Falo sobre as mulheres que operam as tetas e a bunda sem pensar muito na estupidez disso", disse em entrevista ao Estado depois do show. Seu estilo, assim como o da inglesa M.I.A, é calcado na escola do soundsystem. Rimas rápidas e frases repetidas - como "se no me muerdes, yo te muerdo" - formam, juntos a guitarras hipnóticas e batidas eletrônicas acompanhadas de um baterista, os loops dançantes. A base é o bum-tchi-bum dos bailes do morro, mas esse se desenvolve além das batidas esparsas para incorporar sintetizadores e outros elementos de produção. "A cumbia e a champeta são ritmos da periferia colombiana. É uma situação social parecida com a do Brasil. Os ritmos são tocados em bailes considerados perigosos pela maioria das pessoas, mas muita coisa boa acontece por lá", disse Saumet, cuja presença de palco é o elemento chave do show do Bomba Estéreo. Pequena e invocada ela saltou pelo palco e montou nos amplificadores vestida de paetê roxo, na noite de domingo. O ápice do show veio com a canção Psicodélica que com uma mistura ressonante de dub com reggaeton deu o tom balançado que dominaria o palco nos shows de Otto e Lucas Santtana, que tocaram em seguida.

Otto. E eis que as atrações nacionais não param de surpreender. Anteontem, o Palco Novo Som teve Lucas Santtana e Tulipa Ruiz, que fizeram shows memoráveis. Mas o tapa na alma ficou mesmo por conta de Otto.

Há discos que são bem gravados, mas que nem sempre funcionam no palco. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, de Otto, mostra o contrário. Depois de apresentações pegadas no Auditório Ibirapuera e no Comitê, na capital de São Paulo, era de se esperar que este show também arrebataria o público em Itu. É capaz de fazer isso em qualquer lugar.

Acompanhado de sua banda quentíssima, com gente da pesada como Fernando Catatau (guitarra), Pupillo (bateria) e Bactéria (teclados), o cantor e compositor pernambucano botou a plateia para rodopiar com temas de seu disco mais recente - um dos melhores do ano - e outros mais antigos, como Legalize Low.

Faltou um espaço intermediário para Otto. Os palcos principais, de fato, seriam grandes demais para o tipo de som que ele faz, mas o Oi Novo Som ficou pequeno. Lá pelas tantas, como de costume, mesmo com um frio bravo, o crooner - como ele mesmo às vezes se intitula - ficou sem camisa. Ao som de composições suas, como Crua, Saudade, Janaína, Seis Minutos e Filha, Otto rodopiava duas camisas com os braços abertos. Parecia um helicóptero com suas hélices, como Elis Regina fazia.

Por volta de 22h15, ele deixou o palco com a glória merecida e, até a noite de anteontem, como a melhor atração brasileira do SWU. Mesmo assim, a organização poderia repensar os critérios para escolher artistas para uma possível próxima edição. É absolutamente louvável contar no lineup com o talento de gente como Otto, Mombojó e Los Hermanos, que já têm público cativo, mas os palcos periféricos poderiam ser aproveitados para revelar gente nova.

COM REPORTAGEM DE ROBERTO NASCIMENTO E LUCAS NOBILE

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