Colômbia, tão longe, tão perto

LAURA GREENHALGHN

Laura Greenhalghn, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2012 | 03h10

Não passou despercebida a ironia do escritor Juan Gabriel Vásquez quando o mediador da Flip anunciou a chegada de questões vindas do público, evocando um ilustre conterrâneo seu. "Sí, sí, são as perguntas GGM, elas sempre aparecem", comentaria no palco o convidado da festa literária, como se dissesse a si mesmo: se és um escritor colombiano, tens que responder sobre Gabriel García Márquez. Falou do célebre autor como uma espécie de bom fantasma a pairar sobre uma geração de jovens escritores da Colômbia, sendo mais crítico ao opinar sobre o realismo mágico, do qual o Nobel de 1982 se fez expoente. Vásquez acha que a história colombiana nada tem de mágica - ao contrário, é cruel, violenta - e o que menos lhe interessa em Cem Anos de Solidão é justamente o fantástico, pois "quando o romance aterrissa no chão do meu país é que se torna magistral". No dia seguinte, encontro-o no cafezinho da Flip a se justificar perante uma elegante senhora da plateia, armada de um sorriso cuja melhor tradução seria: "Como ousa falar daquele jeito de Gabo?"

Voltamos a tratar de GGM numa pousada de Paraty, onde Juan Gabriel Vásquez esteve hospedado. Desta vez o jovem autor de Os Informantes (2004) e História Secreta de Costaguana (2007), ambos lançados no Brasil pela L&PM, já não ironiza a persistência do tema, mas usa-o para situar sua própria ficção. Ser latino e ser universal converteu-se num enfrentamento árduo para inúmeros autores, porém, no caso de Vásquez, parece coisa resolvida. Em suas reflexões, parte do romancista latino-americano encarnado em nomes como Borges, Onetti e Carpentier, autores que se permitiam beber de diferentes tradições, línguas e sotaques, perseguindo a obra de caráter universal. No entanto, uma geração de "aislados", diz Vásquez. Depois pensa nos "filhos" destes mesmos nomes, a geração do boom literário latino-americano - Cortázar, García Márquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes. "Estes tomaram nas mãos o legado daqueles. Meteram a literatura latino-americana nas correntes universais ao se voltarem também para Faulkner, Hemingway, Broch, e por fim converteram sua produção em absoluta novidade nos anos 60. Mas, obsessivamente, a geração do boom insistiu na busca de uma identidade local." Neto da geração de Borges e filho desse boom latino, Vásquez vem se firmando numa geração que ainda procura romper com o localismo, sem negar a história e a tradição. Uma geração testando a capacidade de expansão de limites.

Autor de conhecido ensaio sobre o realismo mágico, Vásquez sustenta que o gênero não irrompeu na obra de García Márquez, mas foi se constituindo num processo largo. Teria se manifestado já nos anos 40 em Carpentier, numa espécie de "cambio de mirada" do autor (suíço de nascimento, cubano de criação) de O Reino Deste Mundo, romance sobre guerras travadas no Haiti no século 19: "Falo em 'cambio de mirada' porque, depois de viver em Paris, Carpentier veio para a América Latina e no Haiti descobriu que a relação dos homens com o mundo da magia era muito mais fluida do que a relação dos europeus com o surrealismo, com o mundo dos sonhos. É essa ideia de continente mágico que vai guiar García Márquez na construção de Cem Anos..., romance que elimina a fronteira entre realidade e mito, coloca tudo no mesmo plano e consagra-se como conquista literária". Vásquez também salienta como García Márquez ousou ao vir na contramão do seus pares na época, localizando Cem Anos... no mundo rural, enquanto Vargas Llosa se voltava para o urbano em A Cidade e os Cachorros (1962), assim como Fuentes, em A Região Mais Transparente (1958). A senhora da Flip teria se arrepiado ao ouvir de Vásquez que só existem dois tipos de romancistas, os férteis e os estéreis. E coloca García Márquez na segunda categoria, com um argumento de certo modo irretorquível: "No caminho que ele percorreu, ninguém mais passa ou passará. É um fenômeno encerrado em si mesmo."

Em 1995, ao concluir o curso de Direito em Bogotá, Juan Gabriel Vásquez decidiu ir para Paris. Brinca que precisou viver uma espécie de clichê latino-americano, ou seja, o mergulho existencial na cidade que embalou tantos escritores que lhe são referência. Lá, matriculou-se no doutorado da Sorbonne com um projeto de tese que tratava de estudar o "romance total" da América Latina, a partir da análise de três obras fundamentais - Cem Anos de Solidão (1967), de García Márquez, Conversa na Catedral (1969), de Vargas Llosa e Terra Nostra (1975), de Carlos Fuentes. Reconhece que o doutorado serviu de justificativa para viver longe da Colômbia, depois de ter passado os anos da juventude debaixo do pânico de uma Bogotá sob ataque de Pablo Escobar, o chefão do cartel de Medellín. Portanto, se as guerras do narcotráfico marcaram a vida pessoal de Vásquez, também ajudaram a deflagrar sua mudança para a Europa (hoje vive com mulher e filhas em Barcelona) e seu compromisso em tempo integral com a literatura.

Nesta passagem pelo Brasil, lançou o romance História Secreta de Costaguana (2007), encontro de dois viajantes num país caribenho fictício, sendo que um deles é justamente Joseph Conrad, autor do clássico Coração das Trevas. Quando indago por que tanto ele quanto Vargas Llosa retomam Conrad - este em O Sonho do Celta, publicado no Brasil pelo selo Alfaguara, em 2011 - Vásquez comemora a coincidência cravando que Nostromo, obra de 1904 do britânico de origem polonesa, é o antecedente mais claro do que viria a ser a literatura do boom latino, décadas depois. No ano passado, Vásquez publicou na Espanha El Ruido de las Cosas al Caer, inédito por aqui, romance de memórias em que trabalha a experiência pessoal na Bogotá do narcoterrorismo. Mas ainda não se sente atraído pela história da guerrilha a ponto de transformá-la em matéria literária - falta-lhe distanciamento no tempo para penetrar as zonas obscuras do que se passou na selva colombiana. Aos interessados no tema, recomenda um único romance saído da fornalha das Farcs - Os Exércitos, de Evelio Rosero (ed. Globo, 2010). Hoje, por motivos familiares, se prepara para voltar a viver na cidade natal. Não se é bogotano à toa, explica. "Como García Márquez me influenciaria tanto? Ele é um homem caribenho, de um pueblito de alguns milhares de habitantes, nascido em 1927. Sou um homem da montanha, de uma cidade populosa a 2.600 metros de altitude, nascido em 1973. Vivemos Colômbias distintas."

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