Louise Chin / Lost Art
Louise Chin / Lost Art

Coletivos de fotógrafos se unem para exposição inédita

Sete grupos independentes, como Mamana, Lost Art e R.U.A., vão participar da Foto_Invasão, a primeira reunião de profissionais que trazem as novas expressões da fotografia urbana

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2016 | 09h00

A primeira mostra realizada por coletivos fotográfico vai ser realizada no próximo final de semana, no Red Bull Station. Entre os dias 11 e 13 de novembro, a ocupação Foto_Invasão vai dar espaço ao trabalho de profissionais independentes em sete instalações que serão distribuídas entre o porão do prédio e as salas de residência. A curadoria dos profissionais Fernando Velazquez, Cris Veit, Ignacio Aronovich, Louise Chin e Clelia Bailly incluiu não apenas foto, mas também debate, performances e 64 projeções contínuas que serão vistas nos três dias.

Os coletivos que terão espaços específicos na exposição são MAMANA, R.U.A., C.H.O.C. Documental, Remirar, Rolê, LigaLight, o francês Dysturb e o Lost Art. O organizador Ignacio Aronovich, que pertence ao grupo Lost Art, fala de um traço que desafia os participantes. “A ideia era romper com o conceito de exposição convencional de foto, que traz a imagem em uma parede branca na altura dos olhos.” É aqui que a história começa a ficar bem interessante.

O coletivo Mamana, formado só por fotógrafas, vai expor ideias sobre o processo do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Além das fotos fortes, muitas feitas em meio a embates entre policiais e manifestantes, haverá imagens nos vídeos de projeções que só poderão ser vistas por meio de óculos com lentes polarizadas. O coletivo R.U.A. vai expor, pela primeira vez, a desolação da tragédia ambiental de Mariana, com fotos em meio ao barro que remete ao próprio Rio Doce, castigado pela lama de rejeitos de mineração da Barragem do Fundão há um ano. Outro grupo, com experiência de dez anos na linguagem livre dos coletivos, o Rolê, vai levar uma imensidão de três mil fotos que serão espalhadas pela sala e disponíveis para quem quiser levá-las para casa. O Lost Art, de Ignácio, faz também de sua área uma instalação. Eles fotografaram 30 pessoas nuas e gravaram depoimentos sobre seus medos. Suas vozes ecoam nas salas enquanto as pessoas veem as imagens colocadas dentro de garrafas.

A formação dos coletivos mais politizados é um fenômeno recente no Brasil. Eles começam com as manifestações de rua em junho de 2013 e passam a ganhar força a cada levante popular. A linguagem que se vê neste universo mais liberto das demandas das redações de jornais quebra alguns tabus jornalísticos e aponta o dedo com mais firmeza para questões sociais. “A ideia da mostra é revelar o que tem de novo neste fotojornalismo, com suas outras formas de apresentar um fato”, diz a fotógrafa Gabriela Biló, que vive nos dois mundos como profissional do Estadão e integrante do coletivo Mamana.

A fotografia está em transformação, e os coletivos são o que há de mais fresco nessa expressão artística e jornalística. Assim como estes tempos representam o fim do suporte físico para muitos profissionais que se retiram das redações de jornais e revistas, é também o momento de experimentar o compartilhamento infinito e o de fazer uso das novas narrativas.

Os coletivos, como diz Gabriela Biló, do Mamana, nasceram de uma necessidade não só estética, de rompimento com a demanda das redações, mas também de proteção. No meio do fogo cruzado, qualquer ser com uma câmera na mão poderia ser considerado um “inimigo infiltrado pertencente à mídia golpista”. Na verdade, era o contrário. “Para nos protegermos, passamos a andar em grupos no meio das manifestações”, diz Biló. Talvez venha daí o senso de colaboração entre os grupos. “Todos os coletivos se ajudam muito, com indicações de trabalho”.

A politização dos coletivos, inevitável por surgirem no bojo de um contexto politicamente histórico, é tema que pode ser debatido na mesa redonda de sexta-feira (11). A tomada de posição do olhar talvez seja mais radical e poderosa do que o engajamento das ideias no texto. Imagens falam mais e suscitam menos contestações. Mas será um tiro no pé se essa politização fizer o estrago que tem feito no jornalismo. Quando o partidarismo do jornalista o cega para qualquer um dos lados, suas ideias ficam amarradas a um conceito falho:o outro é o ruim e os meus são bons. É aí que a beleza da profissão começa a morrer. 

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