Veridiana Mott/Divulgação
Veridiana Mott/Divulgação

Coletivo e autoral

Teatro de grupo manteve o processo de criação coletiva, mas abriu espaço para traços mais autorais e pessoais

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Se as novas tecnologias alteraram radicalmente a forma de se fazer cinema ou artes plásticas, não se pode dizer que tenham tido impacto semelhante sobre as artes cênicas. Verdade que as intervenções com vídeo se tornam mais frequentes e que surgiram novidades impensáveis há alguns anos - como um teatro concebido para a internet. Mas um exame detalhado do que passou pelos palcos brasileiros - e especificamente paulistanos - nos primeiros anos do século 21 apontam que é outra a novidade do teatro. E que ela, definitivamente, não vem das máquinas.

O Estado ouviu quatro críticos e pesquisadores da área para traçar um panorama da última década: Jefferson Del Rios, Kil Abreu, Sílvia Fernandes e Valmir Santos. Todos foram unânimes em afirmar que a maior transformação nos contornos da cena teatral esbarra - de uma maneira ou de outra - na criação da Lei Municipal de Fomento ao Teatro, em 2002. "O número de montagens cresceu. Não há possibilidade de acompanhar a cena em sua totalidade", aponta Del Rios. Uma constatação que poderia soar trivial se ponderássemos que nem sempre um aumento das produções se reflete em uma cena de qualidade. Mas o saldo que o fomento deixa não é apenas quantitativo.

"Sua herança mais importante, nos últimos dez anos, é a consolidação do teatro de grupo em São Paulo. Não há nenhum outro lugar do Brasil onde essa cultura seja tão forte", observa o crítico Kil Abreu. Para ele, a instituição desse modelo de política pública teve também reflexos estéticos. "O teatro de produção tende a ficar mais apegado a tradições formais. Já o teatro de grupo, que trabalha com uma perspectiva mais alongada, tende a alcançar resultados estéticos mais consistentes."

Não se pode falar em ruptura, mas em continuidade quando se olha para a produção dos últimos anos, argumenta Del Rios. O formato de organização em coletivos já insinuava uma retomada na década de 1990, mas ganhou especial impulso nos anos 2000. Tanto que uma discussão sobre o que se faz em São Paulo hoje esbarra, necessariamente, nos projetos de pesquisas dessas cias. e em suas dramaturgias.

Se olharmos, contudo, para grupos que já estavam atuantes na década anterior - como a Cia. do Latão e o Teatro da Vertigem - qual traço distintivo poderíamos encontrar nessa "segunda geração"?

A dinâmica que difere este século seria justamente a possibilidade de combinação da criação coletiva, um dado herdado da tradição dos anos 1970, com vozes individuais. É como se sem abrir mão do método colaborativo, alguns grupos conseguissem espaço para expor uma fala muito autoral, como se o íntimo, gradativamente, viesse a ocupar o lugar que antes era do épico. "Há uma tendência de pôr no palco algo muito pessoal, num tom de depoimento, mas que ao mesmo tempo continua assumindo o discurso colaborativo", diz Valmir Santos. Um dado, conforme diagnostica o crítico, que permeia o trabalho de coletivos como o XIX de Teatro - que marcou a década com criações como Hysteria e Hygiene, a Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, e o Espanca!, de Belo Horizonte. "Existe na dramaturgia de Grace Passô, do Espanca!, um tônus que não me lembro de ver em autores do teatro brasileiro dos últimos anos", ressalta Santos.

Além da questão autoral, outro aspecto a distinguir a cena atual é sua conotação política. Se o teatro de grupo que ganhou destaque nos anos 70 trazia à tona questões de contornos muito claros, tematizando o período da ditadura militar, a repressão e a luta de classes, as companhias teatrais hoje repõe a pauta sob outra perspectiva, sem encampar um tese sociológica definida a priori. "Existe uma derrota histórica do socialismo que está dada. Assistimos então à reinvenção desse teatro", diz Kil Abreu, que percebe o surgimento de uma nova dramaturgia política.

Equipes teatrais importantes que trabalham sob esse viés, como a Cia. do Latão, Folias, Cia. do Feijão e Cia. São Jorge de Variedades, estariam criando em uma chave experimental, o que não se via anteriormente. Um dos exemplos evocados por Abreu é Êxodos, espetáculo que o Folias apresentou neste ano. A estrutura intrincada não é de fácil assimilação, não conclama a uma causa, não aponta saídas nem respostas. "Isso seria visto como um teatro formalista, quase alienado nos anos 70", diz ele. "Estamos agora diante de uma estrutura muito mais sofisticada, de um teatro político que tem absorvido na própria forma essa complexidade."

Donos da cidade. Se a política em seu sentido tradicional se encontra esvaziada, é natural que esses criadores deixem de mirar macrotemas e se voltem justamente para aquilo que os rodeia: a cidade, o bairro, a rua.

Autora do livro Teatralidades Contemporâneas, um dos mais completos e precisos diagnósticos do teatro brasileiro recente, a professora Sílvia Fernandes vê aí um traço distintivo desse novo teatro. "É sintomático que o fomento seja da Prefeitura. Isso porque a marca da década é justamente a questão do espaço urbano, essa contracena do teatro com a cidade. Um aspecto, aliás, que apareceu de vários modos. Não tivemos apenas um jeito de abordar a cidade."

Para ela, é como se a experiência lançada pelo Teatro da Vertigem - que se notabilizou a partir de 1992 pelo uso de espaços não-convencionais - se esparramasse e desse frutos. "Mas nem dá para dizer que eles foram pioneiros. É algo do espírito da época. Estava no ar."

Entre as "crias" do Vertigem, surgem casos como o da Cia. São Jorge de Variedades, que surpreendeu em 2009 com a corrosiva Quem Não Sabe Mais Quem É, O Que É E Onde Está, Precisa se Mexer. "Percebemos um movimento de retomada desse espaço público que foi subtraído, como se fosse a contra face do crescimento de shoppings e condomínios fechados", diz Sílvia.

Além do diálogo com a cidade e do seu uso como locação dos espetáculos, outro legado deixado pelo grupo de Antônio Araújo, lembra a estudiosa, é uma performatização da cena. Com uma noção de performance - vale ressaltar - renovada. Pautada pela saída da grade tradicional do teatro, pela negação da noção de representação, e com um foco que se lança para a autoexpressão do ator e para a aproximação com outras linguagens, como o vídeo e as artes plásticas.

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