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Coletânea reúne contos do russo Ivan Búnin

Autor foi o primeiro escritor de seu país a vencer o Prêmio Nobel de Literatura

Aurora Bernardini, Especial para o Estado

31 de janeiro de 2014 | 21h02

 Embora, como os bons atores, alguns escritores consigam compor suas obras em estilos diferentes, há sempre, porém, uma dominante que os caracteriza. Este parece ser o caso de Ivan Búnin (1870-1953), o primeiro escritor russo a ser agraciado com o premio do Nobel de Literatura, em 1933, principalmente por seu romance autobiográfico A Vida de Arseniev.

Ao lado de descrições inspiradas da natureza - próprias de sua primeira fase, em que foi poeta reconhecido (Nabokov considerava-o melhor poeta que prosador), no estilo da literatura russa clássica (lembremos Ivan Turguêniev ou Aleksandr Grin) -, descrições essas que também aparecem nesta coletânea mas, alerta Búnin, “como Mario diante das ruínas de Cartago” (O Vizinho), a sua dominante aponta para o que a crítica anglo-saxã, a seu respeito, caracterizou como “harsh realism”: um realismo áspero, duro, ríspido, que , aliás, muito se coaduna com a Weltaunschauung do autor: “O homem, com bastante gosto, até com alegria, liberta-se de quaisquer grilhões humanos e retorna à simplicidade primitiva e à baderna, a um modo selvagem de existência - para isso, bastam as circunstâncias e as justificativas. (...) Por misericórdia divina, é justamente a sobriedade que falta ao homem nos momentos fatais de sua vida. Nessas horas o homem, salvadoramente, embrutece”(Fim).

Nesse sentido, a seleção dos contos para essa coletânea foi certeira, bem como a tradução que os rende em português, ágil, quase cortante, rica em contrações sintéticas e sinestesias. A tradutora, que é também a organizadora do volume, explica, no prefácio, como subdividiu os contos. Os de 1891 a 1917, que são também os mais elaborados , escritos na época czarista, mostram o embrutecimento sensualista dos servos (Ignat); o modo selvagem de existência e o crime sem nenhum castigo (sabe-se que as obras de Dostoiévski despeitavam o autor): “Só um Raskólnikov, como se vê, vive mortificado e apenas e tão somente por causa da própria anemia e por vontade de seu mau escritor, que enfia Cristo em toda sua literatura folhetinesca” (Orelhas em Laço); e a demolição da velhice e da vanguarda (sabe-se que Búnin abominava Maiakóvski): “Nos botequins de subsolo, os chamados cabarés, cheiravam cocaína e, às vezes, para incrementar a popularidade, batiam, com o que tivessem nas mãos, uns nos outros, nas suas caras pintadas, jovens que fingiam ser futuristas, ou seja, pessoas do futuro”(A Velha).

Na segunda subdivisão, uma seleção de contos de 1917-1933, Fim descreve a fuga do comunismo em navio rumo a Constantinopla, talvez o relato mais autobiográfico do livro; O Bem Aventurado e Lápti retratam a dimensão mística e a pureza da alma primitiva russa, em contraposição com Glória, que ataca os santarrões e os falsos iuródivi, tão idolatrados pelo povo. Por sinal, este último, um conto curto, vale-se do flash como procedimento retomado com sucesso em alguns contos da última série (de 1933 a 1955): A Beldade, A Boba e Lobos. Basicamente, as narrativas escolhidas restantes são uma rememoração nostálgica de amores juvenis, impossibilitados pela condição inferior da moça (Nadiejda de Aleias Escuras, a desconhecida de Hora Tardia e a pobre Tania de Tania, que sofre e se desfaz de tanto amor pelo patrãozinho que a abandona, e que , junto com Outono Frio, são os contos tematicamente mais datados da coletânea. “Não adianta, sou um homem do passado, meu mundo é o de Tolstói, de Gontcharóv”, dizia Búnin, que havia rompido com Górki, seu antigo incentivador, obviamente por considerar efêmero e negativo o novo regime, pouco antes de emigrar com a mulher, em 1920, para se estabelecer na França, onde, na casa que alugou nos Alpes, abrigou refugiados durante a 2ª Guerra. No entanto, seu ceticismo negativista, como foi chamado - sempre atento aos menores ritmos, aos menores indícios, o estilo conciso, as conclusões abruptas -, não é, em nada, “passadista”, mas sim prova de uma atualidade às vezes profética. 

AURORA BERNARDINI É ROFESSORA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA RUSSA NA USP

Serviço:

CONTOS ESCOLHIDOS

De Ivan Búnin

Tradução e seleção: Márcia Pileggi Vinha

Editora: Amarylis (228 págs., R$ 39)

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