Coletânea reafirma excelência da obra de Emily Dickinson

DANIEL PIZA

O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2011 | 03h09

C om o título de A Branca Voz da Solidão, o tradutor José Lira retoma a espinhosa empreitada de traduzir Emily Dickinson (1830-1886), poeta americana de quem a mesma editora, Iluminuras, publicou o volume Alguns Poemas em 2007. A voz limpa e única de Dickinson parece confirmar o dito de que poesia é o que se perde na tradução, tal a sutileza de seus ritmos, a concisão de suas imagens, a densidade de suas ideias. Sozinha, ela é a maior prova literária de uma mulher de gênio. E essa genialidade fica ainda mais clara quando se considera a complexidade de verter seus versos. Por mais que Lira afine sua lira, ler o original ao lado é obrigatório para escutar a essência da música de Dickinson.

Ela foi de fato uma mulher solitária, que publicou poucos versos em vida, e quando morreu sua irmã descobriu que ela tinha escrito nada menos que 1.800 poemas, todos dignos da combinação de uma sensibilidade delicada com um intelecto agudo.

Há em seus poemas os ecos de clássicos como Shakespeare, principalmente o dos sonetos, mas a sua é uma eloquência muito distinta, feita também de pausas, vazios, assimetrias - e por isso os travessões se tornaram sua marca registrada, um recurso gráfico usado mais para criar intervalos entre palavras do que inserir apostos nas frases. Muito antes do modernismo, e em contraste ao exagero romântico de sua época, Dickinson praticava uma arte em que o não dizer vale tanto quanto o dizer.

Quando ela escreve, por exemplo, "I felt a Cleaving in my Mind -/ As if my Brain had split -/ I tried to match it - Seam by Seam -/ But could not make it fit" (na tradução: "Senti rachar a minha Mente -/ Meu Cérebro partiu-se -/ Tentei ligar - Ponto por Ponto -/ Mas nada mais se uniu"), temos uma verdadeira descrição de sua própria arte, uma arte de costuras que nunca se ajustam à perfeição.

Ao mesmo tempo, essa voz inadaptável nos dá ânimo, como nos famosos versos "That it will never come again/ Is what makes life so sweet" ("Que nunca mais virá de novo/ É que faz tão doce a vida"), que estão em Alguns Poemas; ou quando chama a esperança de "um invento estranho", "uma patente do coração" (e seus termos tirados da era mecânica dos EUA, como patente e eletricidade, chamam atenção no livro em lançamento), que persiste em eletrizar a vida.

Em outras passagens, Dickinson contraria o formalismo de certas correntes do século posterior ao dizer: "Morre a palavra/ ao ser falada,/ Já se disse./ Mas eu diria/ Que nesse dia/ Ela nasce", melhor defesa de que um idioma vive pelo uso, não pela recusa ao coloquial. Mas os substantivos que adota em maiúscula, como "Prosperity", não podem ser traduzidos senão literalmente (em vez de "Boa Sorte").

A Branca Voz da Solidão não tem os mais célebres poemas de Emily Dickinson, mas por isso mesmo serve para reafirmar o refinamento de sua linguagem, a aflita beleza de sua arte.

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