'Colegas' desdramatiza a Síndrome de Down

'Colegas' desdramatiza a Síndrome de Down

Longa do cineasta Marcelo Galvão é, até agora, o concorrente mais aplaudido em Gramado

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

16 de agosto de 2012 | 03h11

GRAMADO - A julgar pela intensidade das palmas, o favorito do público até agora é Colegas, de Marcelo Galvão, um road movie inusitado. E por quê? Porque é estrelado por uma trinca de atores portadores de Síndrome de Down. Eles fogem de uma instituição, roubam o carro de um dos funcionários, promovem assaltos a mão armada e vão parar na Argentina em busca dos seus sonhos. Um deles deseja ver o mar, que não conhece; o outro quer voar; a mocinha pretende se casar.

Engraçada e alto-astral, a comédia foi aplaudida em cena aberta várias vezes. No fim, aplausos confirmaram que o alvo do diretor havia sido atingido. "Quero que, depois de algum tempo, vocês esqueçam que eles são downianos, e os vejam como jovens como outros quaisquer", disse ele na apresentação.

Um dos rapazes, interpretado por Ariel Goldenberg, é cinéfilo, pretexto para encher o filme de referências cinematográficas, que vão de Hitchcock a Fellini, passando por Tarantino a Fernando Meirelles. Não são artificiais. Encaixam na narrativa e divertem quem gosta de cinema.

Com trilha sonora composta por músicas de Raul Seixas, consegue completar, de forma ficcional, o trabalho já iniciado pelo documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel: fazer com que o público enxergue os downianos como pessoas como as outras, com seus conflitos, alegrias, sonhos e fraquezas. O casal de protagonistas, Ariel Goldenberg e Rita Pokk, havia participado do documentário de Mocarzel.

O segredo do filme é tratar os personagens de maneira desdramatizada, evitando transformá-los em coitadinhos. São confrontados a situações cruas, cheias de preconceitos e reagem à altura. "O forte do filme é esse humor meio negro. A gente usa os termos politicamente incorretos, como forma de denunciar os preconceitos mesmo", diz o diretor Marcelo Galvão.

Colegas é uma boa comédia crítica, gênero em baixa no Brasil. Ou temos filmes críticos ou cômicos, raramente juntando-se as duas características.

Outro concorrente brasileiro apresentado foi o gaúcho Insônia, de Beto Souza, uma comédia romântica que mescla adolescentes e adultos. É a história de Claudia, garota de 15 anos, filha de pai argentino que veio morar no Brasil. Ela perdeu a mãe quando criança e tem dificuldades de relacionamento. Comunica-se no chat com um personagem cujo nickname é Insônia, daí o título. A vida de todos muda de figura quando entra em cena Déia, interpretada por Luana Piovani. Luana não pôde vir a Gramado, o que significou um desfalque irreparável ao festival. Mulherão, com presença forte em cena. Já o filme pretende-se moderninho, com o uso auxiliar de técnicas de animação. Mas não parece ter muito a dizer.

A mostra competitiva de longas estrangeiros prosseguiu com Diez Veces Venceremos, de Cristian Jure (Argentina), e Leontina, de Boris Peters. Dois documentários. Duas experiências penosas.

Diez Veces Venceremos joga na linha engajada ao refazer a trajetória de Pascual Pichún, ativista mapuche acusado de terrorista e preso. Tema nobre, fatura documental um tanto desastrada, tentando dar naturalidade a cenas que obviamente são reconstituições. Redundante em sua estética, deixa de fora informações essenciais sobre o personagem.

Leontina acompanha a personagem-título em sua venerável velhice. Aos 81 anos, Leontina lembra-se do marido, levado pelo mar. A câmera devassa-lhe o corpo, a ponto de vermos na tela imagens de uma endoscopia. A decadência física é um fato da vida, penoso; captada e exposta em superclose torna-se cruel.

Dos curtas até agora vistos, alguns destaques: Dicionário, de Ricardo Weschenfelder, baseado em conto de Lindolf Bell, poeta popularíssimo nos anos 1960. Diário de Não Ver, de Cristina Maure e Joana Oliveira, é um sensível trabalho sobre o tema da cegueira. Di Melo, o Imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro, redescobre a incrível figura do cantor e compositor Di Melo, sumido do mapa. E o mais surpreendente, Menino do Cinco, de Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira, trabalha de modo original a divisão de classes sociais em Salvador, através de uma história de meninos e cãezinhos. Nada inocente, por sinal.

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