Coleção resgata a história da caricatura no Brasil

A ilustração mostra um homem corcunda acossado por um enxame de marimbondos. Publicado em 25 de julho de 1822, em uma gazeta pernambucana chamada "O Maribondo", o desenho revela a animosidade entre brasileiros (representados pelos insetos) e portugueses (o pobre cidadão), às vésperas da proclamação da independência. É justamente essa irônica crítica que marcou o surgimento da caricatura no Brasil. A informação, inédita, é um dos principais trunfos de uma obra de fôlego que será oficialmente lançada nesta terça-feira, no Instituto Cervantes: "História da Caricatura Brasileira", de Luciano Magno.

AE, Agência Estado

17 de dezembro de 2012 | 10h48

Trata-se do primeiro livro de uma coleção que terá seis (talvez sete) volumes, empreendimento raro até mesmo em países com tradição nesse tipo de pesquisa. E sua importância histórica não se resume a apontar a evolução do traço caricatural no País, mas, principalmente, a revelar uma forma crítica de se contar a História. "Busco mostrar como o jornalismo registrou importantes passagens como a campanha abolicionista, liderada pelo artista Angelo Agostini; a questão religiosa, que envolveu a participação de grandes caricaturistas nacionais durante mais de 20 anos; e a causa republicana, que tinha adeptos em inúmeros artistas", conta Magno.

Faz 15 anos que ele iniciou sua pesquisa, respaldado pela experiência - há mais de 25 anos que Magno se debruça sobre a trajetória da caricatura nacional, buscando romper fronteiras. Como identificar o desenho publicado em "O Maribondo" como a primeira manifestação dessa arte no Brasil - até então, a honra cabia a Manoel de Araújo Porto-Alegre, com um trabalho publicado em 14 de dezembro de 1837. "Mesmo assim, ele pode ser considerado o primeiro caricaturista nacional e patrono dessa arte no Brasil", observa Magno.

Nesse primeiro volume, o pesquisador concentra-se na evolução da arte durante o século 19, mostrando como a caricatura se revelou uma importante forma crítica de análise da sociedade. "A caricatura e a charge atacam também por meio do humor e do riso, às vezes até melancólico ou trágico, e dizem uma verdade, sintetizam um fato social, fazem denúncia de uma determinada situação, pessoa, mas esse ataque não é tomado, recebido, num sentido cartesiano, de verdade absoluta, que a escrita, por sua característica, possui", comenta. "Mesmo atuando no campo do simbólico, do subliminar, por isso mesmo, é uma arma ferina de ataque a regimes autoritários e não adeptos da liberdade, e não foram poucas vezes que caricaturistas foram repreendidos e levados à prisão."

A relação entre poder e arte, aliás, sempre foi tensa. "Diferentemente do tempo do Império, no qual o clima de liberalidade era promovido pelo Imperador D. Pedro II, na República a relação dos chargistas com os políticos e os donos do poder, e a censura, sempre foi mais conturbada", anota Magno. "A revista O Malho teve um papel muito importante na política nacional, na Revolução de 1930, defendendo o governo Washington Luís, e criticando os revolucionários da Revolução de 1930, daí porque foi empastelada. As sátiras erram terríveis, atingindo não somente os políticos, mas indiretamente o líder Getúlio Vargas."

Segundo ele, durante o período ditatorial do Estado Novo, a caricatura voltou a sofrer censura, e os artistas tiveram de driblá-la com sutileza e voltar também sua artilharia para o palco europeu, criticando o fascismo e o nazismo na Europa. Nesse particular, Augusto Rodrigues, J. Carlos e Belmonte (um famoso caricaturista paulista) tiveram papel de destaque. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

HISTÓRIA DA CARICATURA BRASILEIRA

Autor: Luciano Magno

Editora: Gala Edições de Arte (528 págs., R$ 120)

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