Coleção Pirelli abre edição eclética

Confirmando-se a cada edição como o mais importante acervo de fotografia contemporânea do País, a coleção Pirelli-Masp dá início a mais uma de suas exposições anuais, agregando o trabalho de outros 18 autores. A mostra deste ano, que será aberta para convidados esta noite no Masp, reúne 61 imagens que formam um panorama bastante amplo da rica produção fotográfica nacional. Na verdade, nem todos os fotógrafos selecionados este ano são desconhecidos na coleção. Arnaldo Pappalardo e Cássio Vasconcellos, por exemplo, já tiveram seu trabalho reconhecido pela comissão de seleção e voltam agora com novas pesquisas, bastante autorais, que ajudam a reforçar o caráter eclético dessa 11.ª versão do evento.Vasconcellos, por exemplo, comparece com uma série de imagens noturnas da cidade de São Paulo, captadas de ângulos totalmente inusitados, que dificultam o reconhecimento de locais familiares como a Oca, no Parque do Ibirapuera, o Parque do Trianon ou o Hotel Comodoro. A questão da cor é outro ponto importante deste trabalho, que passa por um sofisticado processo de digitalização e impressão que garante à imagem um caráter pictórico e bastante sedutor.A paisagem (urbana ou não) está presente em outros trabalhos, como nos registros feitos por Luiz Claudio Marigo nos Lençóis Maranhenses ou na maneira como Marcelo Zocchio e Salomon Cytrynow usam elementos da realidade para construir obras de recortes inusitados, com um alto rigor construtivo e uma interessante tendência ao abstracionismo.As imagens feitas por Luiz Carlos Barreto nas décadas de 50 e 60 são um dos destaques da seleção com seu "belo painel de um Brasil em busca de modernidade", como afirma Rubens Fernandes Júnior em seu texto crítico sobre a seleção deste ano. Uma das imagens que melhor resume essa afirmação é aquela que contrapõe a figura de dois operários trabalhando no barro à imponência de um dos prédios do Congresso que está sendo erguido ao fundo, no meio do nada.Mas a grande presença nesta seleção é a figura humana. Retratada de forma jornalística - mesmo que de maneira irônica - como a imagem de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, feita em 1978 por Hélio Campos Mello, ou com uma forte dose de sensualidade, como o tríptico que Alair Gomes (morto em 1992, aos 71 anos) fez usando como modelo o dorso de um homem desconhecido na Praia de Ipanema, ela está sempre no centro das atenções.Até mesmo quando ausente, ou vista de forma incompleta, a figura humana é o centro das atenções. Quando Rafael Assef retrata um corte avermelhado de sangue numa pele azulada que mais parece pertencer a um defunto, ele está falando na verdade de dor, de mutilação e de vida. A barriga de uma prostituta em uma casa de encontro em Salvador, registrada por Hirossuke Kitaku há dois anos, ou mesmo a cama vazia de Vicente de Mello, que faz parte da série Noite Americana e tem o título sugestivo de Sonâmbulo, fazem parte desse mesmo interesse em usar a máquina não como registro de uma cena real, mas sim como forma de captar o intangível.A técnica pode ser de uma simplicidade impressionante, como o trabalho de forte caráter autobiográfico desenvolvido por Neide Jallageas com uma máquina pinhole. Ou extremamente sofisticada, como as fotos de uma bela mulher deitada na praia, de autoria de Daniel Klalmic, que mantém estreita relação com a estética sedutora da publicidade. Mas como resume Fernandes Júnior, "há muito a fotografia deixou de ser um registro imediato recortado do mundo visível, para ampliar seus limites de elaboração e reflexão, abrindo novos caminhos e procedimentos que a transformaram na mais sedutora das manifestações artísticas".Compartilhando ou não dessa declaração de amor à fotografia contemporânea, quem acompanha de perto a produção artística atual não pode deixar de constatar a crescente importância dessa linguagem. E a existência de iniciativas como a da Coleção Pirelli só faz ampliar o reconhecimento dessa forma de expressão, como mostra a crescente importância de artistas plásticos, que usam a foto como linguagem e não com fim documental no conjunto de autores selecionados a cada ano para fazer parte do acervo.Coleção Pirelli. De terça a domingo, das 11 às 18 horas. De R$ 5,00 a R$ 10,00. Agendamento pelo 283-2585. Masp. Avenida Paulista, 1.578, tel. 251-5644. Até 16/7. Abertura às 19 horas.

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