Coleção do italiano Luigi Koelliker na Pinacoteca do Estado

Em meio a relógios antigos, corais, peças de marfim e tantos outros objetos para quem tem o espírito de colecionar, o milanês Luigi Koelliker começou a adquirir nos últimos 15 anos pinturas do séculos 16, 17 e 18 de todas as escolas italianas. Como define o historiador da arte Vittorio Sgarbi, Koelliker "pretendeu absorver a função do Estado" ao adquirir preciosidades da arte que poderiam estar em qualquer instituição pública do mundo - mas quais são as políticas precisas para que a arte esteja às mãos do público nos museus? O milionário Koelliker, hoje um dos maiores colecionadores da Itália - possui cerca de 2 mil peças -, criou uma espécie de "museu paralelo" com obras de mestres como Ticiano, Tintoretto, El Greco, Luca Giordano, Veronese, Ribera e tantos outros, e sua predileção, como ressalta o historiador, é a pintura caravaggesca - mas ele não possui nenhum quadro de Caravaggio (1573-1610). Um recorte desse museu paralelo de arte italiana chega agora ao Brasil, para o público ver. Foi inaugurada ontem na Pinacoteca do Estado a mostra Luz e Sombra na Pintura Italiana - Entre o Renascimento e o Barroco, que reúne 65 pinturas da coleção Koelliker realizadas entre os séculos 16 e 17. Com predominância maciça de retratos, a exposição ocupa sete salas da instituição e nelas se podem encontrar obras de muitos mestres. "Não há um tema específico no percurso da mostra. A idéia principal é a da interioridade e inquietude. São rostos que demonstram reflexão interior, que estão voltados para si", diz ao Estado Vittorio Sgarbi, curador da exposição. Depois, entre 4 de maio e 8 de julho, Luz e Sombra na Pintura Italiana será apresentada no Paço Imperial, no Rio - e, em sua passagem pela América Latina, ainda está prevista ida para o México. Como afirma o curador, três vertentes foram escolhidas para a exposição, as escolas italianas de Veneza, Bolonha e Roma. Dos venezianos, o destaque é Ticiano (1490-1576) com o Retrato do Poeta Pietro Arentino, realizado entre 1510 e 1511, uma recente descoberta do historiador que é uma espécie de crítico pop na Itália, com blog na internet e até fã-clube - sua popularidade vem da sua postura polêmica e política e também de sua passagem pela televisão (ele tinha um quadro diário entre 1992 e 1999). "Apoiado ao parapeito, o poeta medita e deseja entre a inquietude e a esperança", escreve Sgarbi sobre o retrato do pintor sobre um novato e pensativo escritor que não olha o espectador - Arentino publicou seu primeiro livro em 1512, em Veneza. No quadro, chama a atenção a vestimenta no primeiro plano e o modo como a barba do poeta se dilui na composição. A obra, considerada um "Ticiano desaparecido", foi encontrada em Mallorca. Na imponente galeria de retratos seguidos, que é como se apresenta essa exposição, há outro expoente da escola veneziana, Lorenzo Lotto (1480-1556). Em suas obras, os retratados são melancólicos, em especial O Humanista, um homem a desenrolar um pergaminho. "Lotto procura pela pessoa, não pela personagem; mostra-nos ânsia e fraqueza, não a satisfação pelo poder alcançado, pelo status", define o curador. "Enquanto o poeta transfigura por meio da linguagem a essência psicológica da realidade, o pintor transfigura a sua essência visual; o sentir para o artista figurativo é o ver, e o seu estilo, isto é, a sua arte, se constrói inteiramente sobre os elementos líricos da sua visão", como já escreveu o grande crítico Roberto Longhi. Personagens míticos ou pessoas comuns, é pelo olho do pintor que eles se fazem a nossos olhos, ganham sentidos e simbolismos. Se no quadro de Lotto há melancolia no homem retratado, a Cleópatra de Guido Reni (1575-1642), um dos nomes da pintura bolonhesa, é uma mulher tão europeizada que em nada nos remete à personagem enraizada em nosso imaginário. No percurso escolhido, entre o Renascimento e o Barroco, uma das características dessa passagem é a intensificação do uso do claro-escuro nas composições - já a mostra tem em seu título a idéia de luz e de sombra. O grande mestre foi Caravaggio, mas dele não ficou somente essa característica para seus admiradores. "Em Roma, prevalece pelo menos por 30 anos do século 17 o ensinamento de Caravaggio", como define Sgarbi: a lição principal ou "revolução" era a "visão crua e direta do real" ou ainda, "a interpretação dramática e pecaminosa da existência". Dela, seu maior seguidor foi Juseppe de Ribera (1591-1652). No quadro São Paulo Eremita, Ribera não apenas coloca na tela um efeito surpreendente de claro sobre um lado do corpo do personagem em contraponto com o escuro da cena. São Paulo está, na verdade, representado como um velho frágil e de corpo flácido, encurvado de costas, e até mesmo suas unhas sujas de homem humilde podem ser vistas na composição. Por outro lado, no trabalho de Luca Giordano (1634-1705) aparece o "mito à luz de um dia sem fim", define o curador e, dessa maneira, "cumpre-se o percurso da luz à sombra e da sombra à luz", como finaliza Sgarbi em seu texto. Luz e Sombra na Pintura Italiana: Entre o Renascimento e o Barroco. Pinacoteca do Estado. Pça. da Luz, 2, 3229-9844, metrô Luz. 10 h/18 h (fecha 2.ª). R$ 4, grátis aos sábados. Até 30/4. Patrocínio: TIM.

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