Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Coleção de sonhos

'Da Vincis do Povo' traz a SP curiosas engenhocas feitas em colaboração com inventores amadores

MARIA HIRSZMAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2013 | 02h10

O transeunte que circula apressado pelas ruas do centro de São Paulo tem bons motivos para desacelerar o passo e olhar para o céu ao cruzar a esquina das ruas Álvares Penteado e da Quitanda.

Ele vai encontrar suspensos no ar curiosas engenhocas, máquinas que parecem saídas do sonho de algum futurólogo mambembe ou do cenário de algum antigo filme de ficção científica. Uma charrete voadora, estranhos submarinos, helicópteros, naves espaciais precárias e de extrema beleza dividem o espaço aéreo diante da sede recém-reformada do CCBB-SP, convidando o passante a se tornar espectador e entrar no prédio para ver de perto e de outros ângulos um amplo recorte da produção de Cai Guo-Qiang.

O artista chinês, consagrado internacionalmente pelo trabalho que vem desenvolvendo desde os anos 80 com o uso da pólvora - que já lhe rendeu diversos prêmios internacionais, como o Leão de Ouro da Bienal de Veneza de 1999 -, conta como essas peças de criadores anônimos entraram de forma lenta e marcante em sua produção, até se transformarem em material para intervenções ao mesmo tempo artísticas e políticas, testemunhando a persistência e criatividade dos camponeses marginalizados e que receberam o sugestivo título de Da Vincis do Povo. "De 2000 pra cá comecei a notar que alguns agricultores chineses montavam coisas, criavam máquinas estranhas e fascinantes; em 2004 vi um submarino que parecia um peixe. Fiquei comovido, como se estivesse diante da realização de um sonho de infância", lembra ainda ele.

Esta foi a primeira aquisição de uma coleção que tem mais de 60 peças. Foi necessário um certo tempo de maturação até que, em 2010, Guo-Qiang apresentasse a primeira dessas instalações durante a Expo Changai, chamando a atenção do curador brasileiro Marcello Dantas, promotor das exposições no Brasil. A primeira individual do artista no País já passou por Brasília, onde foi vista por mais de 300 mil espectadores, e segue para o Rio em junho.

Diferente da edição de Brasília e marcando uma promissora parceria entre o CCBB e o majestoso Prédio Histórico dos Correios, no Vale do Anhangabaú, a versão paulistana da mostra tem como grande atrativo essa provocadora inserção na paisagem urbana. Fascinado com a possibilidade de misturar arte no cotidiano da cidade, Guo-Qiang brinca que esta deve ser sua segunda exposição mais vista, sendo superada em termos de público apenas pela festa pirotécnica que organizou na abertura da Olimpíada de Pequim. Mas a mostra não exibe só o resultado dessa parceria com os camponeses.

São 14 grandes instalações, e os destaques são os grandes desenhos em pólvora, com trabalhos de até 48 m de extensão; a busca de um diálogo com o público, por meio da exibição de um amplo conjunto de trabalhos desenvolvidos pelas crianças em oficinas interativas; e os jogos irônicos - mistos de paródia e homenagem - com alguns dos principais ícones da arte contemporânea. Representados por autômatos criados pelo inventor Wu Yulu, lá estão figuras como Yves Klein, Jackson Pollock e Damien Hirst realizando suas performances e pinturas, obras que brincam com a indústria da arte, a ideia de original e o estereótipo que vincula a China ao mercado da cópia e estarão à venda por apenas R$ 50, na livraria do CCBB.

"Ele tem uma mente lúdica, uma maneira quase infantil de ver o mundo, promovendo o encontro entre tradições, entre visões tão distintas", sintetiza Dantas.

Esse diálogo pode ser percebido claramente nos desenhos feitos com pólvora sobre papel. Realizados no País a partir de temas brasileiros como o carnaval e as flores e pássaros tropicais, esses trabalhos carregam ao mesmo tempo referências à tradição artística chinesa e à noção de perigo envolvido no uso de um material que combina o anseio pela imortalidade (a pólvora foi pensada como forma de cura pelo seu inventor e é chamada também de "o remédio do fogo") e o risco da morte. "Não há como prever o resultado, é como se a pólvora tivesse vida, se parece muito com a arte."

Essa busca do vínculo marca também a instalação que ocupa o ponto mais alto do prédio do CCBB, situando-se acima da abóbada em vitral que enfeita o prédio. Depois de passar por uma sala escura na qual curtos filmes mostrando os autômatos em uso pelos próprios criadores são projetados simultaneamente sobre pipas soltas ao vento, o visitante se depara com um espaço iluminado, no qual brancos berços de vime, portando plantas tropicais brasileiras de coloração suave, estão conectados a pipas também brancas, nas quais estão inscritos os nomes de dezenas desses artistas anônimos. "Todos têm histórias, são vozes que merecem ser ouvidas", conclui Guo-Qiang.

CAI GUO-QIANG

CCBB. rua Álvares Penteado, 112, metrô Sé, 3113-3652.

9h/21h (fecha 2ª). Inauguração: hoje, às 11h. Até 23/6. Grátis

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