Coleção de gols

Os primeiros convocados são dois artistas intimamente ligados ao futebol. De um lado, Luis Fernando Verissimo, colunista do Estado, torcedor inconteste do Internacional e figura quase sempre presente nos estádios da Copa do Mundo. Do outro, o ex-lateral esquerdo Júnior, um dos melhores da posição na história do futebol brasileiro, atual comentarista de TV. Juntos, despontam como atacantes na coleção Gol de Letras, que a editora Rocco vai lançar com histórias sobre o esporte bretão voltadas para a garotada.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Verissimo é autor de O Cachorro que Jogava na Ponta Esquerda, nostálgica narrativa que recupera os campos de várzea a partir da história de um time de moleques que se torna famoso graças a Canhoto, habilidoso cãozinho que atua naquela posição. E, em Minha Paixão pelo Futebol, Leovegildo Lins da Gama Júnior (seu nome completo) traça uma despretensiosa autobiografia, em que recupera momentos cruciais de sua carreira, como a desclassificação da Seleção Brasileira na Copa da Espanha, em 1982, após derrota (2 a 3) para Itália.

O time se completará com outros nomes como os compositores Moacyr Luz e Aldir Blanc, o jornalista Fernando Molica e o poeta Fabrício Carpinejar. O projeto, coordenado por Ana Martins Bergin, prevê a formação de 11 títulos, fechando a equipe. Sobre sua estreia, Verissimo conversou, por e-mail, com o Estado.

Apesar de primeiro esporte na paixão nacional, o futebol ainda não inspirou tanto, como se esperava, o cinema e a literatura. Qual sua opinião sobre isso? O fanático que sabe de cor a escalação da seleção da Hungria, vice-campeã em 1954, não teria interesse?

Pois é, tivemos escritores conhecidos pela sua ligação com o futebol, como José Lins do Rego, mas não por escreverem sobre futebol. Talvez haja um certo preconceito com a coisa popular, que não seria assunto para literatura séria. Não sei.

Por outro lado, crônica e futebol casam muito bem no Brasil. Por quê isso se dá?

A crônica é, um pouco, a continuação do papo sobre futebol por outros meios. No Brasil todo mundo tem opinião sobre futebol e a crônica e seus leitores são uma extensão da mesa do boteco, onde também há os que entendem mais do que os outros, os que tem mais estilo etc.

Você acredita que a dificuldade, no caso da literatura, estaria na dualidade do futebol que, segundo Bernardo de Hollanda, "é ao mesmo tempo um esporte e um jogo, uma dimensão lógica de regras táticas e técnicas acompanhado de uma série de aspectos imponderáveis, como o acaso, a sorte e o azar"?

Eu acho que essa ambiguidade do futebol seria razão para se escrever mais sobre ele, não menos. No sentido de quanto mais complexo, mais respeitável, como literatura.

A ponta esquerda sempre foi uma posição sofredora (geralmente, é o primeiro jogador a ser substituído, quando o técnico precisa da retranca). Foi por causa disso que você pensou no cachorro canhoto para o livro?

O cachorro, como eu o descrevo no livro, é um ponteiro esquerdo clássico. Joga aberto e na frente. Talvez seja um pouco de nostalgia do autor, do tempo em que ainda havia ponteiros.

A narrativa, aliás, privilegia o futebol como uma atividade comum, de anônimos, e não apenas praticada por estrelas.

A ideia da editora era que a coleção fosse sobre futebol. O universo retratado no livro é o dos campos de futebol de uma certa época, meio termo entre o campinho de peladas e o estádio, que hoje quase não existem. E também o universo meio mágico, meio mitificado, da adolescência, da turma da zona, do joelho ralado como galardão.

Qual é a sua expectativa com relação à Seleção Brasileira na África do Sul?

Como um dunguista histórico, eu só posso esperar que ele esteja certo e tenha sucesso. Time nós temos, mas time também parecia que tínhamos na Alemanha, em 2006, e foi o que se viu.

Como sede da Copa de 2014, estamos livres das eliminatórias sul-americanas. É algo positivo, pois o treinador terá tempo de sobra para se preparar, ou, pelo contrário, não estaremos, digamos, "afiando a faca" como deveria ser?

Como sempre passamos pelas eliminatórias, não acho que elas sejam uma grande prova. Uma das consequências da Copa ser no Brasil, 60 anos depois, é que estará todo o mundo pensando na Copa de 50.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.