Coleção Beckett ganha peça-chave

Lançamento de Dias Felizes precede a tradução de outras obras do dramaturgo, como os romances Murphy e Watt

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Apresentada anteontem, ontem e hoje no 17.º Porto Alegre em Cena, a montagem de Dias Felizes (foto acima), dirigida pelo americano Robert Wilson, coincide com o lançamento no Brasil do texto escrito em 1961 pelo dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989) pela Cosac Naify. É a terceira peça de Beckett publicada pela editora, que dará prosseguimento à coleção dedicada ao autor, traduzida por Fábio de Souza Andrade, professor de Teoria Literária da USP. As duas anteriores, Fim de Partida (de 1957) e Esperando Godot (1952), já lançadas dentro de coleção Prosa do Mundo, em 2002 e 2005, respectivamente, estão sendo reeditadas com novas capas - sugestivos desenhos do canadense Philip Guston (1913-1980) que traduzem em linhas sintéticas o universo oclusivo dos personagens de Beckett.

De Beckett, além das peças, a Cosac Naify já publicou Proust, ensaio sobre o autor francês Marcel Proust (1871-1922), e Primeiro Amor, monólogo de 1945 em que o narrador relata sua primeira experiência amorosa. Quatro outros livros de Beckett estão programados: Murphy, romance de 1938 sobre um enfermeiro que passa a considerar a insanidade de seus pacientes uma alternativa para a ameaçadora consciência; Watt (1953), romance sobre a trajetória de um recluso criado; Textos para Nada (1950-52), 13 exercícios literários sem título e inconclusivos sobre a experiência existencial; e Antologia Beckett, organizada pela crítica literária Flora Süssekind.

O que caracteriza a Coleção Beckett da editora é o cuidado extremo com a produção gráfica (todos os volumes com capa dura e sobrecapa), os esclarecedores ensaios que precedem cada volume e a pesquisa iconográfica com imagens das principais montagens de cada peça, além de sugestões de leitura sobre os textos. A edição de Dias Felizes, por exemplo, traz fotos tanto das montagens pioneiras - a inglesa, com Brenda Bruce no Royal Court de Londres, em 1962 - como da encenação brasileira com Fernanda Montenegro, de 1995, passando pela produção dirigida pelo próprio Beckett em 1979 (com Billie Whitelaw no papel de Winnie).

Como observa o professor Fábio de Souza Andrade na apresentação de Dias Felizes, o relançamento das duas peças anteriores (Fim de Partida e Esperando Godot) permite ao leitor concluir que existe uma relação estreita entre os dois vagabundos de Godot, entregues à própria sorte, o cego paralítico e seu criado coxo de Fim de Partida e a vaidosa senhora presa à terra devastada de Dias Felizes. O ensaísta conta que sete versões foram escritas por Beckett até a final, que estreou em Nova York em 1961. O dramaturgo suprimiu alusões paródicas e retirou o marido de Winnie da primeira cena, em que o patético Willie aparecia de quatro com o traseiro semiexposto. Optou por deixar Winnie em sua aflitiva imobilidade, sem qualquer concessão cômica, fazendo dela a primeira protagonista mulher de sua obra. Souza Andrade observa que até Dias Felizes "as mulheres não passavam de memoráveis coadjuvantes" nas peças de Beckett.

Esperando Godot teve montagens brasileiras com mulheres nos papéis de Vladimir e Estragon (Cacilda Becker e Lilian Lemmertz; Eva Wilma e Lélia Abramo), mas, segundo o tradutor, "Beckett encarava-as com relutância, convicto de que na camaradagem e nas provocações que orientavam a convivência de Vladimir e Estragon há especificidades masculinas irredutíveis à lógica das mulheres". Já em Dias Felizes, só uma mulher poderia "se manter otimista", mesmo enterrada até a cintura ou corroída pela indiferença do marido, argumenta o professor, que revela as referências mitológicas usadas por Beckett na construção de Winnie, citando o historiador francês Jean-Pierre Vernant (1914-2007). "Na tradição grega, por exemplo, a imobilidade é uma característica feminina." Héstia, a deusa do lar, fica em casa. Hermes, o mensageiro dos deuses, circula. "Os homens se movem, mas anseiam pela imobilidade, enquanto algumas mulheres, instadas pela ataraxia dos companheiros, ganham a rua", conclui Souza Andrade.

Outra revelação: a colina onde está enterrada Winnie, que compensa sua imobilidade falando o tempo todo, seria uma espécie de meia ampulheta. Ela, segundo o professor, faz referência ao monte impossível mencionado em Fim de Partida. Nele, os grãos de areia vão caindo e "borram os limites nada claros" entre os "dias felizes" de Winnie e o vácuo existencial de sua vida burguesa ao lado do marido indiferente. A criatura é reduzida a um fantasma com meio corpo, que canta, se maquia, mas é incapaz de fugir de sua tragédia: a de não poder se comunicar.

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