Colagem cênica pouco inspirada é salva pelo canto

Crítica

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

BOM

Tosca é uma ópera de protagonistas - e seu sucesso repousa abertamente na qualidade dos intérpretes. Na produção apresentada na semana passada no Municipal do Rio, a soprano americana Sondra Radvanosky, como Tosca, demonstrou boa presença cênica e uma voz de volume generoso, com um cuidado na construção das linhas melódicas eventualmente perturbado por um vibrato excessivo. Thiago Arancam tem um timbre bonito, abaritonado, cuja riqueza de cores ele explora muito bem - e é certo que a maturidade poderá levá-lo a um cuidado maior com o fraseado, refinando ainda mais sua interpretação. A voz do experiente barítono espanhol Juan Pons já apresenta sinais de envelhecimento, mas a musicalidade e a presença cênica conferem enorme autoridade a um Scarpia que, em sua leitura, é elegante e sinuoso, revelado, enfim, em toda a sua complexidade.

À frente da Sinfônica do Teatro Municipal, o maestro Silvio Viegas ofereceu leitura sensível nas passagens mais líricas, como o dueto do primeiro ato, mas deixou escapar sutilezas - em descompasso com o que ofereciam os cantores - em momentos cruciais, como o embate de Tosca e Scarpia no segundo ato, um dos pontos altos da dramaturgia pucciniana. A montagem de Carla Camurati inspira-se nas obras do artista plástico italiano Giovanni Battista Piranesi, reproduzidas no fundo do palco. É um ponto de partida interessante - e só. As imagens não dialogam com a cena minimalista e o resultado é mais uma colagem de elementos do que uma concepção propriamente dita - o que, se não atrapalha a narrativa, também não oferece novas possibilidades de leitura à história.

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