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Coisas escorubiúdas

Experiência fascinante: fuçar nos baús verbais de família, sua ou alheia

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2018 | 02h00

Rendeu mais que o esperado a conversa da semana passada, na qual arrolei palavras e expressões de uso exclusivo, ou quase, na casa onde me criei. Cutucada, a memória verbal de quem leu “Gasguitos na gagosa” fez desabar – via internet, telefone e nessa modalidade de comunicação que as redes sociais ameaçam tornar obsoleta, o papo presencial – uma fartura de amostras de vocabulário ainda circulantes ou exumadas de baús domésticos.

Na minha própria família, para começar, a prima Lêda desempoeirou neologismo de uso corrente na casa da tia Dorinha e adjacências – um adjetivo que, pensando bem, é perfeito para designar algo esquisito e confuso: “Que coisa mais escorubiúda, meu Deus!”. 

Não menos escorubiúdo, e igualmente não dicionarizado, é um substantivo de que o avô materno do primo Ruy se valia para pedir que se estancasse uma corrente de vento: “Fecha essa sucarra!”. Em Porto Alegre, minha tia-avó Gilda dava sentido particular à palavra “lira” para adjetivar pessoa ou objeto de mau gosto: “Fulana é muito lira”, tange o primo Alvaro à guisa de exemplificação. 

Na casa da tia Lygia e do tio Carlos, ir ao banheiro era ir ao “sorti” – e me pergunto, sem me responder, se a incorporação do vocábulo não teria a ver com algum colégio de moças dos velhíssimos tempos, em que a aluna, quando às voltas com urgências fisiológicas, pedisse à freira francesa, no idioma desta, licença para “sortir”, ir lá fora. Em nossa família, já que cheguei a tais baixios (ou “baixeiros”, diria minha mãe), um dos produtos de semelhantes surtidas se denominava “an-an”, expressão reveladora do esforço despendido. Mas sequer merecia nome o diminuto acidente geográfico corporal de onde ele provinha – ao contrário do que se passava na casa de meus amigos Barros de Carvalho, onde o inominável era o “ás de copas”. Ou no lar de amiga minha, onde a mãe, versada em romance nordestino, recomendava às crianças que lavassem bem o “zé lins”.

Na minha família, como em tantas outras, havia palavras portadoras de intrigantes deformações. Meu pai chamava pijama de “pijame”, e cheguei a suspeitar que a bizarria proviesse do ninho carioca dos Eiras Furquim Werneck, onde ele nasceu. Mas parece que não foi assim, pois na casa de seu irmão Jorge, informa o Ruy, tal indumentária era pijama, como em qualquer parte – com uma particularidade, porém, que nos conduz ao terreno do que seria um, digamos, transgênero verbal, pois lá se dizia “a” pijama. Mas não se chegou, que eu saiba, ao correspondente “o camisola”. 

No clã paulista dos Sardenberg, a que pertence meu amigo Izalco, a herança da avó paterna incluiu termo criado pela dona Leomênia para designar gente grosseira, sem classe, mal-educada: “retubefá”. Mais recentemente, a família incorporou outra expressiva esquisitice, o “escapanu”, aplicável, com algo próximo do desdém, a um fulano qualquer: “Quem é esse escapanu?”, querem saber os Sardenberg. Poeta que poucos já puderam ler, o Izalco se encantou mais com a palavra do que com o significado, e se pergunta se no “u” final não haveria um laivo de idioma romeno. 

De Mariana, Minas Gerais, o Danilo Gomes levou para Brasília o termo “reculuta” – corruptela, explica, de “recruta”, jovem soldado cujo apetite vertiginoso inspirou o apelido de todo aquele, militar ou não, que dê conta de um pratão de comida. É também de Mariana, informa o Danilo, certa forma – piedosa ou maligna? – de referir-se a criatura muito feia: “Sofre das feições...”. 

Já o Guilherme, belo-horizontino com raízes na mineira Teófilo Otoni, contou que na família de seu pai havia explicação para quem se enfurnasse no quarto e lá permanecesse: “Ah, ele tá de juanico...”. Origem da expressão? Um tal Juanico, famoso na cidade pela mania de trancafiar-se. 

Quanto ao carioca Antonio Carlos, que desfrutou de infância em Cachoeiro de Itapemirim, trouxe de lá o verbo “esburrar”, sacado, na maioria das vezes, para falar do leite fervente que transborda no fogão. O transbordante saber de Antonio Carlos, de que este cronista tem sido beneficiário, é prova de que “esburrar” admite sentido figurado. 

Dona de linguagem criativa, talento que teria feito dela uma escritora, minha mãe entortava palavras sem maior cerimônia. Imagino o trabalho que daria a um corretor ortográfico. Em sua prosa, que infelizmente não baixou ao papel, “rebordosa” era “rebordose”, e o substantivo “tendepá” – briga, rixa, confusão – ganhava involuntário acento afrancesado como “tandepá”. 

Era mestra, a dona Wanda, na criação de palavras. E dada, também, a injetar sentido novo em vocábulos já dicionarizados. “Embondo”, que no Houaiss é “aquilo que dificulta, que embaraça”, ou “estorvo, impedimento”, virava sinônimo de conversa mole para enrolar o próximo. Embondar era o que fazia eu, na tentativa de explicar meus recorrentes malfeitos, escolares ou não. Coisa vagabunda, de má qualidade, ganhava de minha mãe o rótulo “ribimba”. Nada a ver – fui conferir – com o verbo “rebimbar”, como faz um sino em momento de excitação.

Na família da mamãe, mineira a mais não poder, usava-se linguagem tão elíptica quanto enviesada, o que impunha ao interlocutor o trabalho de ler também – ou sobretudo – os silêncios. Entre os Avelar Azeredo Coutinho da antiga geração, não se dizia que alguém estava bêbado ou de porre, e sim “na losna” – embora, desconfio, nem todos soubessem que a palavra designa poderosa beberagem alcoólica, o absinto. Tampouco se dizia que alguém era homossexual. Naquela fortaleza da discrição e da virtude cristã, não convinha dar nome aos bois – e menos ainda aos mamíferos ruminantes da família dos cervídeos providos de cornos ramificados. O máximo a que se chegava remetia, sem aparente malícia, a cavaleiro e montaria: “Esse camarada não é muito firme nos arreios...”. 

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