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Humberto Werneck
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Coisas de Brasil

Nos mais de vinte anos que viveu no Brasil, entre 1951 e 1974, Elizabeth Bishop acabou colecionadora informal de brasileirismos - hábitos, jeitos, tiques e características de que nós, nativos, nem sempre nos damos conta. Marcas da nacionalidade? Vamos chamá-las assim: coisas de Brasil. A grande poeta americana às vezes se escandalizava, mas sobretudo se divertia - e, em qualquer hipótese, repassava os achados em cartas a amigos nos EUA. Reunida num livro fascinante, Uma Arte, sua correspondência está repleta de "coisas do Brasil", gostáveis e não.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2014 | 02h06

Ela se encantou, por exemplo, com "desmarcar", verbo "muito bom e humano" que a seu ver faz falta ao idioma inglês, nos momentos em que "você quer pular fora de um compromisso ou desconvidar-se". Impressionou-se também com o que lhe pareceu ser paparicação dos brasileirinhos pelos adultos, e escreveu a um amigo: "Aqui, as pessoas amam as crianças mais do que em qualquer outro lugar - com a possível exceção da Índia. Nenhum sacrifício é grande demais quando é feito em nome dos filhos".

Em outra carta, Elizabeth Bishop registrou sua constatação de que "os brasileiros parecem adorar doenças" - e lascou ironias: "É muito interessante adoecer e tomar remédio em português, e os brasileiros ficam na maior animação quando tem alguém doente". Nessas ocasiões, disse ela, cada circunstante saca seu diagnóstico, e o vilão é quase invariavelmente o mesmo: "O único órgão que a maioria dos brasileiros reconhece é o fígado; a gente chega a ficar enjoada de ouvir tantas conversas infindáveis sobre o estado do fígado de cada um".

No Brasil, achava a escritora, "há uma espécie de obsessão com beleza - todo mundo vive descrevendo os olhinhos e narizinhos e queixinhos das crianças - e quando os vejo muitas vezes me decepciono. O "nível geral de beleza", na sua avaliação, era "um tanto baixo." Elizabeth considerava "bem brasileira" certa "mistura de bom gosto com gosto atroz". Com deliciosa acidez, contou a um colega: "Os escritores daqui costumam aparecer em fotos deitados em redes, e talvez seja este o problema da literatura brasileira".

*

Ninguém precisa pôr óculos de estrangeiro para olhar em torno, ou simplesmente encarar o espelho, e topar com uma fartura de "coisas de Brasil". Exclusividades do Patropi? Provavelmente não - mas nossa coleção por certo impressiona.

Por ora, deixo aqui pequena amostra do que há de menos gostável ou de francamente abominável nessa galeria - para a qual, aliás, conto com a sua contribuição, seja ela exaltante ou deprimente.

Não estive ainda em todos os cantos do mundo, mas suponho que em nenhuma parte haja prosperado com tanta desenvoltura a instituição do flanelinha, aquele camarada a balangar o braço em pêndulo nas vizinhanças do estádio, ou brotando de insuspeitada toca mal você estaciona o carro onde quer que seja. Serviço oferecido: "olhar".

Quando foi que começou? Não faz tanto tempo assim - e no entanto parece existir desde sempre. Tivesse Pedro Álvares Cabral chegado de carro, não de caravela, e encontraria a postos um flanelinha de cocar. Como a contravenção, a furação de fila, a carteirada e o "só cinco minutinhos", eis aí uma instituição que deu certo no Brasil. Seria uma invenção nossa, como dizem ser o pau de arara em que a mais recente ditadura pendurava seus opositores?

Certamente não inventamos o desapreço pela pontualidade, mas é evidente que a pereba social se aclimatou bem entre nós. Uma de minhas mais queridas amigas vem defendendo, a sério, a ideia de que, em se tratando de festa, chegar na hora é falta de educação. Disso não pode ser acusada, pois quando chega, cabelos ruivos ainda úmidos, a noitada já vai a todo pano. Curiosamente, para tudo o mais a moça é pontual. Não só: se ela lhe disser "aparece lá em casa", saiba que o convite, mesmo vindo de uma carioca praticante, é para ser tomado ao pé da letra.

O que mais? A propensão a incrementar os decibéis do gogó quando em terra estrangeira, ou no avião de volta, inclusive para desafinar no samba, também é coisa de Brasil; ou a certeza, para nós indiscutível, de que somos simpáticos e agradamos, mesmo quando sobram evidências em contrário.

Mas desconfio que estou exagerando na antipatia. Será mais uma coisa de brasileiro?

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