Coisas da internet

Pesquisas mostram que o brasileiro ajuda empresas de tecnologia a serem líderes

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 03h00

De uma coisa tenho medo: a internet das coisas. Me apavora a possibilidade de darem inteligência à minha geladeira, mesmo a artificial. 

Ela em si já é assustadora, com duas bocas maiores do que de mamíferos terrestres, que, se me engolir, me mata congelado. Pode também cuspir garrafas, tupperwares, fruteiras, travessas de vidro, se estiver descontente com a bagunça dela ou com a data de validade vencida de alguns produtos.

O freezer pode me lançar uma chuva de gelos, bandejas de carne congeladas, caixas de almôndegas e quibes, se estiver num daqueles dias.

Ter um fogão conectado pode ser uma boa ideia. Próximos de casa, no trânsito, podemos mandá-lo começar a assar aquele suflê demorado. Apesar de que hoje em dia quase ninguém mais faz suflê. Não é o cúmulo da preguiça a pessoa chegar em casa e não acender o forno, todos eles digitalizados agora, antes de lavar as mãos?

Banheiro conectado? Faça-me o favor... Cidadão não consegue levantar o braço para abrir uma torneira, mas consegue programar no aplicativo a hora de ligar a água quente do chuveiro ou banheira? 

Me pergunto se, ao invés de comandos programados, que levam ao sedentarismo, as horas gastas na academia, para compensar o colesterol alto e gordurinhas a mais, não seria melhor pôr a mão na massas, digo, no suflê, em interruptores de liga e desliga, abrir torneiras, checar a validade da mistura e encher todas as malditas formas de gelo.

No mais, e se a geladeira for fã de Hitchcock, já que estará conectada ao streaming da casa, fizer um complô com o chuveiro e sugerir, no meio no banho de banheira, quando relaxamos num banho de espumas, uma ducha de água pelando na nossa nuca?

Ou se um vizinho invejoso, um grupo extremista, gente do governo, ou atendente de telemarketing que não atendermos, entrar em nosso sistema, invadir o cérebro das coisas, programar o fogão a abrir o gás no meio da madrugada, para, em vingança, nos matar?

E sei bem que brasileiro é obcecado pela internet. No boom do Orkut, um jornalista americano me perguntou por que acessávamos tanto a rede social emergente. Eu disse que gostamos de fofocar, fuxicar, socializar, palpitar e olhar a vida alheia. Orkut era como aquela cadeira de armar na frente das casas do interior, em que pessoas se sentam para ver o movimento.

A turma da Tecnologia da Informação baba quando vê nosso consumo de horas de WhatsApp, Insta (criado por um brasileiro), Facebook (criado em parceria com outro brasileiro), Uber. Apesar do futuro não estar bem distribuído, ele já chegou entre nós. Inclusive a internet das coisas e os algoritmos.

Estudo divulgado no início do mês pelo fundo de capital de risco Atlantico (sem acento), usando fontes que vão do Banco Mundial à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, mostra que o brasileiro é responsável por tornar empresas de tecnologia líderes globais, como o Nubank em bancos digitais, e o iFood em delivery de alimentos:

“Para aqueles que ainda acreditam que o Vale do Silício é dono do monopólio na inovação, é importante ressaltar que fundos de venture capital da América Latina estão performando melhor do que benchmarks globais.”

Apesar de termos das piores médias de velocidades de conexão de internet móvel e dos maiores custos, a pesquisa aponta que o brasileiro é o terceiro povo que passa mais horas por dia na internet (9h15). 

Perde apenas para Filipinas (9h45) e África do Sul (9h22), está acima da média mundial (6h43), e de países mais ricos, como Japão (4h22), Alemanha (4h52), França (5h08), Coreia do Sul (5h22) e Reino Unido (5h28), na parte de baixo da tabela. Entre os serviços mais utilizados pelos brasileiros, 92% são de mensagens, 82% de redes sociais, 73% de música, 73% de vídeo. 

Mark Zuckerberg sorri de orelha a orelha quando lê dados sobre o Brasil. WhatsApp é o app mais popular do país. Tem em 99% dos smartphones, e 79% das pessoas o usam como principal fonte de informação. A porcentagem de empresas que usam o WhatsApp para se comunicarem com clientes é de 72%, e a de pessoas que usam para trabalho é de 60%. Eu, entre elas. Apenas 20% usam e-mail. Que não entendo como ainda sobrevive.

O ranking dos principais aplicativos móveis de 2019 é, na ordem: WhatsApp, Facebook, Facebook Messenger, Instagram, Uber, Netflix, Mercado Livre, Spotify, Caixa Econômica Federal, Waze. As quatro primeiras são de Mark, e tem duas aí do Google.

A empresa argentina MercadoLivre opera em 19 países da América Latina e já vale mais (em capitalização) do que Petrobrás, Vale, Walmart, Itaú, Ambev e Bradesco. No Brasil, com a pandemia, o número de pedidos da iFood cresceu 59%. Em 2019, Uber, 99, iFood e Rappi se tornaram, juntos, o maior empregador privado do Brasil, com 3,8 milhões de trabalhadores autônomos. Serviços de streamings cresceram 49%. Eles têm nossos dados e segredos. 

Me lembra aquela piada em que a esposa pergunta ao marido o porquê da fita crepe na câmera do laptop. “Para o Mark não nos vigiar”. “Boa”, ela diz. “Boa”, diz o Alexa da sala. “Boa”, diz o Siri do celular. “Boa”, escutam do Assistente Google do vizinho.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’

 

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