Cohn-Bendit fala de sua paixão pelo futebol

Ele começa a conversa sobre sua paixão esportiva transmitindo uma mensagem "inquieta e urgente" aos dirigentes dos clubes nacionais, sobretudo do Rio e São Paulo: "O futebol-arte do Brasil corre sério perigo de desaparecer, de não mais deslumbrar o mundo, se seus jogadores continuarem saindo do País para jogar na Europa, onde, sem dúvida, podem ganhar muito mais dinheiro. Mas, em contrapartida, assimilando o estilo de jogo europeu, rígido, demasiado técnico, sem muito jogo de cintura e pouca fantasia, eles contribuem decisivamente para a europeização do futebol brasileiro, que tenderá, assim, a perder sua originalidade, virtuosidade, expressão artística." "Dany" não apenas celebra o futebol como torcedor, o analisa como comentarista episódico das rádios francesas e alemãs, como também o pratica habitualmente aos sábados em Frankfurt (onde reside sua família), envergando a camisa que traz às costas um número evocativo - 68... Ele joga então com o filho de oito anos, Bela, e, mais energicamente, no time de seus amigos formado há anos e do qual faz parte o atual ministro alemão das Relações Exteriores, Joschka Fischer. Ambos viveram na mesma comunidade estudantil de Frankfurt, trabalharam juntos na revista cultural alternativa Paralelepípedos (alusão à rebelião estudantil tocada com pedras arrancadas das ruas de Paris) e fundaram a livraria Karl Marx, assim batizada por "Dany" pelo puro gosto da provocação. Fora da pelada semanal, o futebol é, aliás, a única coisa que o separa radicalmente de seu amigo ministro, pois o franco-alemão "Dany" torce pela França, onde nasceu e pela qual é agora um dos deputados no Parlamento Europeu, quando esta joga contra a Alemanha, que o acolheu na infância, o elegeu ao mesmo Parlamento Europeu em 94 e lhe assegura a nacionalidade. Joschka, entretanto, tolera a "traição", em nome da velha amizade forjada nos "paralelepípedos" das lutas estudantis. Bem que o líder de maio de 68 gostaria de adquirir a nacionalidade francesa, pois isso, conforme suas próprias palavras, "traduziria melhor minha realidade identitária como cidadão e torcedor". Mas ele renunciou à idéia: "Havia demasiado subentendidos a propósito de minha integração no jogo político francês." Indagado sobre o que achava da declaração do presidente do Banco da França, Jean-Claude Trichet, segundo a qual "a vitória da França (contra a Itália) no Euro 2000 terá conseqüências benéficas na economia", "Dany" declarou-se cético quanto à capacidade de o futebol produzir outros efeitos que os próprios da diversão, da festa esportiva. E sublinhou: "Sem dúvida, o futebol tem hoje este lado de componente da economia de mercado, com todas essas cifras mirabolantes em jogo, mas tenho minhas dúvidas sobre se as emoções por ele produzidas possam acarretar o efeito de arrasto pelas demais setores da vida ativa." Cohn-Bendit é igualmente prudente na apreciação dos estudos sobre as funções sociais do esporte: "Para mim, o futebol é uma possibilidade, um momento de sonho, que serve também de instrumento para a ascensão social do jogador. Agora pergunto: mas por que essa tentação de tirar o futebol do domínio transcendental da emoção pura para enfiá-lo nas bitolas estreitas da racionalidade e dar-lhe outra função social que não seja a de nos fazer a festa?" Sobre à velha denúncia marxista de que o futebol, "ópio do povo", é um meio de desviar as massas da visão clara dos problemas econômicos e sociais, o ideólogo do movimento verde não contém a irreverência: "Se a pessoa deseja se injetar a emoção pura do futebol, conta com minha inteira cumplicidade, porque as drogas suaves, "softs", como o futebol, não me colocam o menor problema!"

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