Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90

Cohen instintos e reflexões

Arnaldo Cohen e seus 40 anos de sons e ideias que extrapolam o mundo erudito

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2012 | 02h09

O pianista carioca Arnaldo Cohen decidiu-se pelo piano a meio caminho do curso de engenharia, portanto já adulto. Mesmo assim, e contra todas as expectativas, conquistou em 1972 o primeiro prêmio do Concurso Internacional de Piano Ferruccio Busoni, em Bolzano, Itália.

Na próxima quarta, repete na Sala São Paulo o mesmo programa que o levou à vitória em Bolzano 40 anos atrás: a Chacona de Bach na transcrição de Busoni; as Variações e Fuga Sobre Um Tema de Haendel, Opus 24, de Brahms; a Sonatina de Ravel; a Balada n.º 4 em Fá Menor Opus 52 de Chopin; e a Sonata n.º 7, em Si Bemol Maior, Opus 83, de Prokofiev.

Quatro décadas de uma carreira fulgurante, em que primeiro brilhou nas melhores salas de concerto do planeta, quando morava em Londres e foi professor da Royal Academy of Music; e, nos últimos oito anos, radicado nos Estados Unidos, já como professor vitalício no Departamento de Música da Universidade de Indiana. Assume na temporada 2013/14, a direção artística da Portland Piano International Series.

Cohen tem sua imagem vinculada a obras que exigem muito, tecnicamente, do intérprete, como as de Liszt ou os concertos de Rachmaninov (que gravou com a Osesp e Neschling para a BIS). Mas privilegia o sentimento, a emoção. "Tive certa ocasião uma crítica negativa do Financial Times, em Londres; fiquei tão chateado que parei de tocar por três meses." Fez dez anos de análise: "Uma maneira de se autoconhecer essencial ao ser humano". Cohen conversou na última terça com o Estado no hall da Sala São Paulo.

Você é um pianista que pensa a música, ao contrário da maioria de seus pares, e por isso vai além do comentário puramente técnico. Sente-se isolado?

Sinto-me diferente, mas acredito muito no instinto. É curioso, porque respondo sempre à queima-roupa. É um risco, mas a primeira resposta é sempre a melhor.

E como você pensa a música?

Vejo, penso, sinto a música baseado em alguns conceitos básicos. Primeiro, é uma linguagem alternativa que ajuda as pessoas a lidarem com as opressões e repressões do mundo. E não existe sem seus três elementos fundamentais: a melodia, que é como o homem falando; o ritmo, que é a pulsação que vivenciamos ainda no útero de nossas mães; e a harmonia, que é a natureza.

É por isso que as pessoas não gostam de música contemporânea? Por que a reação dos ouvintes é emocional? Ou por que ela aboliu a melodia convencional?

Na música moderna, a melodia não é explícita. E, cá pra nós, melodia é a voz humana que se transforma em pensamento. A reação das pessoas que ouvem é com certeza emocional. Quando temos 1.500 pessoas na sala de concerto, certamente haverá 1.501 interpretações da música que está sendo tocada: a minha e a dos outros 1.500, todas diferentes. Cada um insere a música em sua história emocional.

Você ouve discos ou assiste a recitais de outros pianistas?

Não escuto muito CDs porque sei que não são um fiel retrato do artista. Um amigo que produziu o álbum duplo de estreia do pianista russo Evgeny Kissin - aliás, um grande, notável pianista - gravado ao vivo no Carnegie Hall, me contou que Kissin ficou dois ou três dias em estúdio aprimorando o teipe original. E no CD saiu em letras garrafais "gravado ao vivo". Será?

O que é, pra você, um grande pianista? Você me disse que conhece Lang Lang e conversou com o pai dele. O chinês é um grande pianista?

É um grande pianista. Domina o instrumento de maneira soberba e passa sinceridade quando toca. Você só convence as pessoas de uma verdade quando está convencido dela. Com exceção dos políticos (risos).

Nestas quatro décadas você viveu praticamente na Europa e nos EUA, mas tem vindo anualmente ao Brasil. Falando em políticos, como vê este julgamento do mensalão?

É tão interessante quanto um jogo de futebol. Agora, falando sério, é um sinal importante. Para muitos com quem tenho conversado, representa uma reconversão, as pessoas voltam a acreditar no País. É um fato impensável 30 anos atrás. O problema é a velocidade desta mudança. Eu gostaria que fosse um prestissimo con fuoco...

Você considera importante, ao estudar uma obra como a Sonata em si menor de Liszt, ler e se informar sobre a vida do compositor, como decorreu o processo de criação, etc.?

Sim, porque as informações podem não ser implícitas e vitais individualmente, mas são fundamentais no todo. No caso de Liszt, a compreensão de sua vida ilumina sua música, e vice-versa. Quando escrevia a Sonata em Si Menor, um dos clímax da música romântica do século 19, ele compôs, simultaneamente, o Grande Galope Cromático. Duas obras antípodas, opostas em tudo; uma profunda, profundíssima e complexa; outra puro fogo de artifício e entretenimento. É preciso explorar os contrastes em Liszt. Wagner jamais seria Wagner se não fosse Liszt. No fim da Sonata em Si Menor, por exemplo, há uma progressão harmônica que os estudiosos chamam de tipicamente wagneriana. Ora, mas isso é olhar pelo retrovisor; não se pode chamar de wagneriana, mas de lisztiana a progressão. E olhe que Liszt antecipou até a atonalidade, foi um visionário...

Considera que vivemos a era da performance?

Até o século 19, o intérprete era o próprio compositor, casos de Bach e Beethoven. No romantismo, eles se diferenciaram e a melodia se tornou pensamento, a voz tornou-se pensamento. A música romântica é muito explícita, é como assistir à TV, você passivamente a recebe sem esforço, esticado no sofá. O atonalismo exige participação maior do ouvinte, a chamada escuta ativa de Adorno. O último empurrão foi influência da indústria fonográfica, que vive de artistas ou repertórios. Tudo isso contribuiu para a era da performance.

Mas a indústria fonográfica agoniza, massacrada pela internet, streaming, downloads, YouTube.

A indústria agoniza, mas o público ainda se divide entre artistas e repertório como critérios para ouvir música. A internet democratiza, mas elimina o espírito crítico. Quem me garante que aquela performance no YouTube não foi maquiada? Na internet, como no disco, aliás - e é por isso que não tenho planos de gravar -, você pode vender gato por lebre. Por tudo isso, o mais importante hoje na vida musical é o concerto. Ali, no palco, não há maquiagem.

Se o concerto é hoje o centro da vida musical, por que você decidiu, daqui em diante, diminuir a sua média anual de 80, 90 concertos para 30?

Sou muito intenso em tudo o que faço. Quero ter mais tempo para curtir as demais coisas da vida. Com uma média de 30 concertos - e falo concertos com orquestra, porque não desejo mais fazer recitais -, terei tempo de ler, de viver, enfim, daqui para a frente.

É assim que você vê o futuro, aos 40 anos de carreira?

Meu futuro é hoje (olha para a grande janela do hall da Sala São Paulo). Tá nublado; espero que amanhã faça sol. Esta certeza é daquelas coisas que a gente descobre com o tempo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.