Coetzee, a arte de resumir

Sem vigor crítico, ensaios do sul-africano funcionam como introdução às obras

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, consagrado autor de romances como Desonra, tem todas as características do bom resenhista. Lê com a maior atenção, descreve fielmente características e enredos, contextualiza o livro na obra, no lugar e na época do autor, não faz prejulgamento de forma ou ideologia e, mais importante, diz claramente o que admira e não admira. Como tem vasta leitura, é poliglota e um hábil ficcionista, percebe e resume nitidamente os Mecanismos Internos de cada narrativa - para usar o título de sua coletânea recém-lançada no Brasil. São 21 "ensaios sobre literatura", dos quais 16 aparecidos originalmente na New York Review of Books, mais prestigiosa publicação sobre livros dos EUA.

O que chama a atenção é a presença de autores europeus da primeira metade do século 20, quase todos com um senso de decadência muito acentuado: do italiano Italo Svevo ao irlandês Samuel Beckett, do polonês Bruno Schulz ao húngaro Sándor Márai, passando pelos alemães Walter Benjamin (e sua crítica aos "adoradores enfeitiçados" das modas) e Paul Celan (cujas traduções para o inglês examina em detalhes). E é em alguns desses textos que Coetzee atinge os melhores momentos, como ao lembrar que a vocação de Robert Walser está nas formas breves ou comparar Robert Musil e Freud ("Não gostava da moda da psicanálise, reprovava sua reivindicação de ampla abrangência").

O gosto por esse modernismo algo melancólico não o impede, por exemplo, de lembrar que Schulz não é um Kafka e que na ficção de Márai falta desenvolvimento das personagens. Tampouco o impede de dedicar alguns bons textos à literatura americana: Walt Whitman, William Faulkner, Saul Bellow, Arthur Miller e, sobretudo, Philip Roth - em cujos romances, como O Teatro de Sabbath, destaca uma "eloquência desesperada" e um "humor aguçado" que se aproximam de Shakespeare. Coetzee ainda comenta livros da conterrânea Nadine Gordimer, de quem nunca foi entusiasta, e de García Márquez, elogiando em Memórias de Minhas Putas Tristes a estratégia com que aborda o desejo pedófilo de um velho.

Apesar de tantas observações pertinentes, o mecanismo interno das resenhas de Coetzee se articula como um resumo comentado - com muita propriedade, mas sem muita novidade. Elas não fazem voos críticos que lancem luz sobre autores tão conhecidos; funcionam muito bem como introduções às obras, não mais que isso. Mas de quantos resenhistas atuais se pode dizer o mesmo?

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