Coco Chanel: uma senhorita mal falada

Quando morreu, há 30 anos, Coco Chanel tinha transformado seu nome em centenas de símbolos como um corte de cabelo, perfumes, bolsas, correntinhas e tailleurs. Mas o estilo que o marketing que só faria difundir ano a ano é apenas a parte mais lucrativa da biografia de Mademoiselle Chanel. Além dessa, existe uma vida cercada de mitologia e controvérsia. Nascida Gabrielle Bonheur Chanel , no vilarejo francês de Saumour, em 1883, ela já foi descrita como uma personalidade difícil, contraditória, sedutora, provocadora e arrivista. Prevaleceu, entretanto, em suas criações, um profundo desejo de liberdade. Graças a isso, revolucionou o conceito de elegância. Livrou as mulheres de incômodos espartilhos e cintas que compunham o vestuário da Belle Époque. Diminuiu o comprimento das roupas, usou tecidos rústicos e confortáveis. Também desenhou bijuterias, fazendo delas apetrechos chiques, cobiçados pelas mulheres ricas que antes só se enfeitavam com jóias preciosas. Coco Chanel foi a fonte de muitas das mentiras que se espalharam sua sobre vida. Ocultava o passado humilde, a estadia em orfanato e as apresentações em cabarés. Coco ficou órfã aos 6 anos e foi abandonada pelo pai. Os biógrafos queimaram as pestanas para obter informações fidedignas sobre uma mentirosa contumaz. Contavar que fôra criada por severas tias, tudo desmentido mais tarde. Sua vida antes da criação da Maison Chanel, em Paris, na rua Cambon permanece envolta em mistérios. O apelido "Coco" talvez tenha surgido quando Chanel se apresentava em cabarés, em Moulins. Dava opiniões sobre tudo. Era uma boa frasista: "Não deixo os outros falarem porque sou tímida", explicava. A alardeada timidez não foi empecilho para grandes aventuras. Enfeitiçavam os homens. Foi por meio de um deles, milionário, o oficial de cavalaria Etiénne Balsan, que deixou a vida noturna e ganhou um espaço em Paris. Outro amante, que viria a ser o grande amor de sua vida, um rico jogador de pólo, Arthur Capel, conhecido como Boy Capel, financiou as primeiras lojas. Com a ajuda de Capel, em 1909, aos 26 anos, ela abriu uma casa de chapéus em Paris. Em 1913, inaugurou duas boutiques uma em Deauville outra em Paris. Em 1920, fixou-se na capital francesa, montando sua maison na Rua Cambon. Seu estilo logo chamou atenção ao propor "pobreza e simplicidade para os milionários". O famoso perfume Chanel nº 5 foi lançado em 21. 5 era seu número da sorte. Nas criações, abusava de tecidos como jérsei e brim. Mas não abria mão de longos colares de pérolas. Houve muitos poderosos em seu currículo amoroso. Com o duque de Westminster teve duradoura relação. Ele chegou a pedi-la em casamento, mas ela recusou, com uma de suas frases estrepitosas: "Existem muitas duquesas no mundo, mas só uma Coco". Conheceu por meio de amizades célebres, como Misia Sirt, Pablo Picasso, Jean Cocteau e Stravinsky, entre outros- a alta sociedade parisiense. E soube como ninguém que aquele universo teria de mudar com a velocidade do século 20. Industrialização, emancipação da mulher, tudo isso Chanel soube traduzir em suas criações. Fez a loja crescer justamente quando a Europa vivia o entre-guerras. Recriou-se e ressurgiu das cinzas como poucos. Fechou as portas da maison Chanel em 39, com a Segunda Guerra. Foi refugiar-se na Suíça. Quando, na década de 50, todos julgavam que Mademoiselle já era passado e que o must da época era Dior - que pregava a volta da mulher cheia de babados e enfeites -, ela voltou em alto estilo. Soube recriar seus famosos tailleurs retinhos e seu sucesso alcançou os Estados Unidos. Refinou o que já havia feito. Jaquetas sem gola, tweed e jerséi, tudo muito prático. Sapatos bicolores, o vestido preto básico, chapéus simples, bainhas à altura doss joelhos e a bolsa de matelassê. Leva a assinatura de Coco Chanel o tragicamente famoso tailleur rosa que Jacqueline Kennedy vestia em Dallas, quando Kennedy foi assassinado. Entre seus clientes estavam celebridades de quase todas as áreas. A princesa Grace, Marlene Dietrich, Ingrid Bergman, os Rockfellers e Marilyn Monroe. Marilyn criou a melhor propaganda para o Chanel nº 5, ao afirmar que algumas gotas do perfume era tudo o que usava para dormir. A primeira das clientes importantes foi a madame de Rothschild, mulher de um poderoso banqueiro. Brigada com seu costureiro, procurou Chanel, em Deauville. Os capítulos mais polêmicos da vida de Chanel referem-se a sua atuação durante a Segunda Guerra, quando foi acusada de colaborar com os alemães. Em L´Irréguliére, uma de suas principais biografias, publicada três anos após sua morte, em 74, Edmonde Charles-Roux traça uma história que, embora nunca tenha sido provada, manchou a reputação de Chanel. Ela teria participado de uma operação batizada de Modelhut (chapéu da moda), a qual obrigaria ingleses a assinar tratado de paz em separado com os alemães.A amizade com o Duque de Westminster foi o que teria motivado os alemães a procurar Chanel como intermediária. Segundo o livro, a operação não deu certo, os ingleses não quiseram assinar o tratado. Chanel chegou a ser presa no fim da guerra. Foi solta depois que as investigações a isentaram de qualquer culpa. Morreu aos 88 anos sozinha, no dia 10 de janeiro de 1971, sem filhos, em um quarto do hotel Ritz. Sua maison continua ativa em Paris, sob a batuta do estilista Karl Lagerfeld.

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2001 | 15h13

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.