Cocker conserva animalidade da voz

"Deus os abençoe", disse Joe Cocker para a plateia de 5 mil pessoas à sua frente, na Vila Olímpia. O público de São Paulo esperou 21 anos para ouvi-lo de novo, e parecia até um pouco ansioso na noite de anteontem. Britanicamente pontual, Cocker entrou em cena com sua banda às 22 h, uma banda formada por um tecladista e um organista, guitarrista, baterista, duas cantoras de apoio e uma baixista funky que parecia saída de um filme de blaxploitation.

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h08

O som no Via Funchal não era bom, e a primeira canção, Hitchcock Railway, ainda mantinha a voz de Cocker abafada, embora já impressionante. Ele não economizava nos gritos lancinantes e percorria toda a extensão de sua voz como se estivesse iniciando uma turnê. Generoso, ele cumpriu sua promessa de cantar apenas duas canções novas (a dançável Hard Knocks, com direito a gracejos vocais das vocalistas de apoio, e a pungente Unforgiven, de seu mais recente disco). O resto foi um desfile de hits.

Quando Joe Cocker, todo de preto, cantou You're So Beautiful (de Billy Preston), a fabulosa técnica e a entrega do artista davam a impressão que se ele tivesse cantado só aquele número já teria valido a noite. É uma pièce de resistance de gerações e passou pelo teste do tempo incólume (estava na trilha da novela A Vida da Gente, como tema romântico do casal Thiago Lacerda e Vanessa Lóes).

Mas havia muito mais: Unchain My Heart, You Can Leave Your Hat on, Feeling Allright, Shelter Me. Como diz de si mesmo o próprio cantor, ele é um homem do blues. Mas há também um condimento de funk que empresta uma eletricidade toda especial a músicas como You Can Leave Your Hat On, de Randy Newman, e Come Together, dos Beatles.

Vestido de preto, Joe Cocker toca um piano imaginário só com a mão esquerda. De vez em quando dá um pulo inesperado e festeja a própria performance. Seus gritos lancinantes geravam aplausos automáticos, que cobriam seu grito no ar enquanto ainda se espalhava pela Vila Olímpia. Bebia muita água, caminhava com um jeito resoluto e não errava uma entrada, um verso, uma pausa.

Na banda, as glórias estavam reservadas para os tecladistas: Nicholas Milosevich e Jeff Levine (órgão elétrico). Faziam uma blitz de acordes para almofadar a voz de Joe. Na cozinha, o baterista John Bruno e a baixista Onieda James-Rebeccu davam o andamento funky. As cantoras de apoio eram as notáveis Nichelle Tillman e Andrick Brown.

"Somos ainda uma banda ao vivo. Quando vou gravar uma música, vamos ao estúdio e gravamos ao vivo. Não sou um homem de computadores. Uso o pro-tools, é claro, mas minha procura ainda é pelo sentimento natural de um show", ele diz.

Quando ele voltou para o primeiro bis, já era lucro em cima de lucro. Mas aí ele engatou um presente extra, a sua versão de Cry me a River, o fabuloso sucesso de Ella Fitzgerald (e tantos outros). Havia já uma sensação de êxtase coletivo, as pessoas estavam com sorrisos de satisfação de orelha a orelha, aquele jeito glorioso de quem está saciado, mas não empapuçado.

Muitos velhos ídolos da música têm passado por aqui para que a gente possa exercitar o teste da permanência. Joe Cocker fará 68 anos em maio. Como KC, da KC and Sunshine Band (que fez show no ano passado), Joe Cocker é um herói de um tempo perdido. Só que KC era um entertainer da dance music, e Joe Cocker é uma garganta, uma animalidade rara que surpreendeu o mundo há 44 anos e que continua a surpreender. Uma voz que não viu surgirem herdeiros nos últimos 45 anos.

O pop "saxofônico" que foi moda no tempo do filme 9 e 1/2 Semanas de Amor também estava lá, a cargo do instrumentista Francisco Norberto Fimpel. E não é que foi bacana? Fora decretado como algo brega durante todos os anos 1990 e a primeira década deste século, mas nas mãos de Cocker volta a ser fashion, como os mullets ou os jeans de cós alto.

Musicalmente, Joe Cocker aprendeu lições do soul, da disco music, do jazz, do blues, e tudo isso comparece. "Eu amava James Brown. Nós fizemos uma turnê juntos pela Europa pouco antes de ele morrer, com uma orquestra, e ambos estávamos no programa. Toda noite ele vinha ao meu show e a gente dividia o microfone. Acho que todo cantor de R&B dos Estados Unidos tem um débito para com James Brown, assim como eu tenho um débito para com Ray Charles e também para com Marvin Gaye", ele disse ao Estado.

Hoje, Joe Cocker canta em Belo Horizonte, no Chevrolet Hall (Avenida Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi), às 21h30. Amanhã, estará no Rio de Janeiro, no HSBC Arena (Av. Embaixador Abelardo Bueno, 3.401 / Barra da Tijuca), e o show começa às 20h30.

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