Cobras & Lagartos dá preguiça

Penoso, o flagelo dos escravos de Sinhá Moça, que já não podem mais se dar ao luxo de recordar o exemplar personagem vivido por Milton Gonçalves na atual novela das 6. Nem Vitória (Cláudia Abreu), a viúva da novela das 9, pode mais se lembrar de seus dias na Grécia com Pedro, papel que foi de Henri Castelli. Aos olhos da Globo, personagem morto é para ser esquecido mesmo, nem um flash-back de saudade. Aos olhos do público, a índole de Gonçalves e Castelli agora é bem outra: está condicionada aos tipos que encarnam em Cobras & Lagartos, o folhetim das 7 que estreou anteontem. Quem vê a TV Globo reprisando atores escalados para enredos que sequer terminaram deve imaginar que esse mercado de fato padece uma enormidade pela falta de profissionais. Francamente, é muita preguiça. Preguiça de pensar, preguiça de arriscar, preguiça de procurar alternativas menos óbvias. Vá lá que um Milton Gonçalves não se encontre em qualquer foco, mas, um Henri Castelli... A propósito do moço, a parceria com Carolina Dieckmann, com todo o respeito, está longe de repetir o efeito do dueto canalha que Gilberto Braga alimentou em Celebridade, nas figuras de Laura "Cachorra" Prudente da Costa (Cláudia Abreu) e seu adorável michê (Márcio Garcia). O ritmo clipado alcançou sua overdose na apresentação do comercial da tal Luxus, versão de Daslu, em sessão reservada ao dono da loja, Omar Pasquim (senhor Francisco Cuoco). Coisa de deixar tontinho até o mais dependente consumidor de música eletrônica. Quebrando o compasso, amém, estavam o violoncelo de Mariana Ximenes e o clarinete de Daniel de Oliveira - enfim, um casal que promete química. Ela, lindinha, doce, derretida por Bach, desinteressada no dinheiro do tio - quem disse que ninguém é perfeito? - e ele, motoboy e músico autodidata. É para escancarar quem é do bem e quem é do mal, senão dá preguiça de pensar. Preguiça é lançar mão de peitinhos à mostra às 7 da noite - antes de ser uma observação moralista, diga-se, é só um caminho mais fácil para frear o zapping. Lázaro Ramos é um que vale o comparecimento diante da tela. Idem sobre o núcleo de Eliane Giardini e Otávio Augusto. Mas, até aí, onde a risada é certa, o déjà vu dá o ar da graça. E Carolina Dieckmann, cabelão platinado, detona no vocabulário vulgar. Ah, ela é má, que medo! Tudo vem mastigadinho, alucinógeno barato para fazer valer a preguiça do cidadão telespectador.

Agencia Estado,

26 de abril de 2006 | 09h50

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