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Cobertura ou campanha

Nunca foi tão difícil separar documentar campanha de fazer campanha

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2017 | 03h00

A campanha presidencial do Brasil começou cedo demais, como a americana de 2016, promete ser igualmente dominada pela polarização e deve nos oferecer doses semelhantes de baixaria e manipulação da rede social. Se nada disso pode ser evitado, podemos torcer para o reexame do papel de um dos atores que contribuiu para o resultado de 2016.

Falo da minha profissão. Se há um caso a estudar para não repetir foi o papel que a mídia eletrônica teve na ascensão do apresentador do reality show cuja franquia foi trazida ao Brasil pelo prefeito Gestor. Já escrevi neste espaço sobre o cálculo feito por repórteres investigativos examinando todo o tempo de candidatos no ar ao longo da campanha: o atual presidente americano teve o equivalente a US$ 2 bilhões de tempo grátis no ar. Quando não dava para botar a cara, ele telefonava para estúdios, estava constantemente disponível. Não há propaganda eleitoral gratuita aqui e divisões de jornalismo podem dedicar mais tempo a este ou aquele candidato.

Muitos jornalistas hoje chocados com os rumos do país foram cúmplices entusiasmados dos excessos. O homem dava audiência, cliques, quanto mais choque e escândalo melhor. Como disse o presidente da rede CBS, o candidato pode não ser bom para o país, mas é bom para a CBS.

Sim, a lei de propaganda eleitoral no Brasil é mais rígida. Mas lembro de um detalhe preocupante: os brasileiros estão entre os que mais consomem notícia pelo Facebook no mundo. Estamos vendo a ponta do iceberg do hacking da eleição americana pela rede social, acima de tudo no Facebook. Nossa lei eleitoral não foi escrita para esse cenário. De São Petersburgo, hackers russos compraram anúncios em inglês usando micro-targeting – dirigindo mensagens para grupos específicos. No caso já conhecido, os anúncios parecem ter sido mais voltados para a supressão do voto – manter minorias, devotos de Bernie Sanders longe das urnas.

Dois prováveis candidatos com forte presença na rede social e relação antagônica com a imprensa já perceberam que a receita do bolo americano pode colar no forno eleitoral de Pindorama. Nos Estados Unidos, o antagonismo da imprensa com o poder sempre existiu, mas, a partir dos anos 1990, a direita fez da mídia um de seus espantalhos. Apesar de sempre ter havido mídia conservadora mainstream nos EUA, o ecossistema do jornalismo, especialmente o eletrônico, era tradicionalmente centrista e liberal.

Com a introdução da saúva da Fox News e a consolidação da cobertura binária há 20 anos – a Terra só é redonda se um conservador e um liberal concordarem –, a imprensa generalizada como “de esquerda” por preguiçosos conservadores mandiocas se comportou de maneira defensiva em 2016. No caso americano, a certeza da vitória de Hillary Clinton cegou boa parte do establishment da mídia.

O próximo ano vai marcar um aumento de consumo de notícias e de receita do jornalismo no Brasil. Mas o desafio para responsáveis por conteúdo editorial é o maior desde a chegada da mídia digital. Como avaliar o que é notícia de consequência sem ser acusado de censurar? Quando o candidato que faz piada sobre estupro meritocrático diz que “tem que fuzilar” curadores de uma exposição e, em seguida, diz “é força de expressão”, sabe que tem garantia de propaganda grátis na forma de choque. A parte do “fuzilar” vira manchete, sua base fica contente e nenhuma consequência legal transcorre da linguagem brucutu. O candidato gestor, que, nos métodos, dá sinal de admiração secreta pelo colega Aprendiz, sabe que atacar jornalistas é como achar chuchu na serra da rede social.

Garantia de exposição e indignação recreativa. Nunca foi tão difícil separar documentar campanha de fazer campanha.

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