Cobalt Rouge estréia amanhã no Teatro Alfa

Estados de transformação - esse parece ser o eixo eleito para Cobalt Rouge se desenvolver. O espetáculo foi apresentado na semana passada no Rio e estréia amanhã em São Paulo, no Teatro Alfa. Coreografado por Tedd Robinson para Louise Lecavalier e mais três bailarinos, já na primeira cena anuncia o tipo de recurso que usa para sua estrutura. Envolvida em um vestido-escultura (criado por Lyne Beaulieu), Louise Lecavalier vai lentamente saindo dele, como quem abandona um casulo que, mais adiante, será retomado. Quem sabe, um anúncio para a continuidade das suas transformações... Quando está dentro dessa embalagem, que funciona como uma espécie de outro corpo, seus movimentos são mais lentos, ondulantes e propõem uma exploração solitária em torno da verticalidade e de seus eixos. Depois que abandona esse corpo invólucro, mostra-se pronta para descobrir o espaço e estabelecer relacionamentos. Para realizar isso, a coreografia faz da velocidade uma regente dos movimentos. A metáfora é boa para registrar o abandono de uma imagem construída no La La La Human Steps, ao longo da sua carreira de 18 anos como estrela e parceira de Edouard Lock, um dos mais instigantes coreógrafos da contemporaneidade. Com ele, cunhou o risco como sua grife particular. E agora, quando segue sozinha na carreira de bailarina, sinaliza para um outro entendimento de risco - a ponto de estar sendo dirigida, em um solo que estreará na Suíça em maio, por Benot Lachambre, um daqueles artistas que fazem a dança avançar no radicalismo de suas investigações. O assunto de Cobalt Rouge parece ser o risco dos processos de transformação. O título do trabalho aponta para essa discussão, pois escolhe duas substâncias caracterizadas pela ambigüidade, como descreve o texto do programa: o rouge, que os chineses preparam da flor do açafrão, é verde brilhante e metálico quando espalhado no cartão em que é vendido, mas se torna vermelho carmim quando colore a pele da face ou dos lábios; e o cobalto, que é um metal, mas quebradiço e, quando colore o vidro, adquire uma tonalidade de azul que leva seu nome. Vidro-pele, artificial-natural, azul-vermelho/verde, lento-rápido, passado-presente, sozinha-com outros três bailarinos, em silêncio-com a música. Transições de estado mostradas por uma bailarina que revela um admirável controle sobre o fôlego necessário para lidar com a cascata de movimentos da coreografia que alimenta seu corpo. Uma Louise Lecavalier que surpreende pela feminilidade que aderiu a seu corpo e derreteu a imagem andrógina que construiu antes. A noite de estréia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro iniciou-se com Tatiana Leskova entregando o Prêmio Reconhecimento Antares Dança a Angel Vianna, em cerimônia singela e tocante. Trata-se de uma ótima iniciativa de Maria Rita Stumpf, a diretora-geral da empresa que, no ano passado, homenageou Ruth Rachou e Vera Kumpera e, em 2006, celebrará também as trajetórias de Yara de Cunto e Marilena Ansaldi. Louise Lecavalier, Cobalt Rouge. Teatro Alfa. Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, tel. 5693-4000. Amanhã, às 21 horas; dom., às 18 horas. Ingressos de R$ 30 a R$ 90.

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