Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Coalizão kumbaya

País antes de partido. Este slogan é uma das frases de 2017 nos Estados Unidos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2017 | 02h00

País antes de partido. Este slogan é uma das frases de 2017 nos Estados Unidos. Foi cunhado por conservadores desconsolados, vários meses antes de seu partido nomear um acusado de molestar menores para concorrer ao Senado pelo Alabama, afinal derrotado na eleição da terça-feira passada. Alguns se desfiliaram do Partido Republicano depois de décadas de fidelidade para tomar distância do assalto à decência que denunciam em Sucupirington. Senadores republicanos tuitaram cheques de doação de campanha ao candidato democrata, o primeiro a se eleger no estado desde 1992.

Primeiro com timidez, agora abertamente, conservadores da era Reagan e neoconservadores de Bush filho, gente que apoiou a invasão do Iraque e os excessos cometidos na reação ao 11 de setembro, foram se chegando. É o pessoal que definia como kumbaya qualquer acomodação com liberais e progressistas. Kumbaya é um termo do dialeto falado por negros do Sul que significa “venha para cá” e foi celebrizado numa canção folclórica mais tarde gravada por Joan Baez, nos anos 1960. Virou sinônimo de piedade ingênua. 

Em novembro, o escritor e acadêmico Benjamin Wittes, especializado em segurança nacional, escancarou e escreveu na rede social um manifesto propondo uma coalizão pró-democracia na qual bicudos que não se beijam coloquem de lado suas diferenças e se reúnam em torno de preocupações comuns. “Conte comigo,” respondeu logo um escritor identificado com os democratas.

A dança de conservadores com liberais democratas, como já contei aqui, começou após a eleição de 2016. Mas o manifesto de Wittes acentua não só a sensação de impotência com o assalto ao Judiciário, à liberdade de imprensa, como o desmonte da base intelectual da política externa, exemplificada pela perda de 60% dos embaixadores de carreira que abandonaram o Departamento de Estado desde a posse presidencial.

Mas o clima de kumbaya não impressionou todos os analistas à esquerda do espectro político, não necessariamente por argumentos ideológicos e sim pelo cálculo eleitoral. A mais recente pesquisa após o surpreendente resultado do Alabama coloca a minoria democrata na melhor posição para a eleição legislativa do ano que vem desde que Barack Obama levou a Casa Branca, em 2008. As duas eleições especiais recentes, a de governador na Virgínia e a de senador no Alabama revelaram o peso eleitoral dos americanos de menos de 35 anos. O clichê “é a economia, estúpido” parece aos poucos ser suplantado por “é a demografia, estúpido.” 

Telefonei para Howard Dean, ex-presidente do Partido Democrata entre 2005 e 2009, cinco vezes eleito governador do idílico estado de Vermont, na Nova Inglaterra. À frente do partido, Dean promoveu a estratégia dos 50 estados, que apresentava candidatos mesmo em eleições em que a vantagem republicana era evidente. Dean atendeu o telefone animado, e quem pode culpá-lo, ao ver comprovados sua tese com o azarão no Alabama e seu argumento sobre eleitores jovens, cheios do racha entre os seguidores de dois setentões, Hillary Clinton e Bernie Sanders. “Gostaria que calassem a boca,” ele diz, impaciente com democratas lambendo as feridas de 2016. E lembra: “Na Virgínia, 69% dos eleitores de 18 a 30 anos votaram no candidato democrata.”

O ex-governador não aposta alto numa coalizão kumbaya, apesar de acreditar que há terreno comum evidente entre opositores do trumpismo. “Mas não conte com Washington,” diz. “A capital é o último lugar a produzir inovação em política.”

Com ou sem coalizão eleitoral, a nova conversa entre conservadores e liberais nos EUA tem um ponto de acordo: o nível de polarização que estamos vendo em países ocidentais é uma espécie de desejo de morte do sistema democrático do pós-guerra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.