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Clown para rir ou dar nó na garganta

O 67º Festival de Veneza reverencia o grande ator italiano Vittorio Gassman

Luiz Zanin Oricchio / VENEZA, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2010 | 00h00

Este ano, o 67.º Festival de Veneza é dedicado à memória de um dos grandes atores do país - Vittorio Gassman (1922-2000), cujos dez anos de morte se completam em 2010. Nada mais justo. Se existe alguém que deixou saudades foi ele. Seja na pele de personagens célebres de Shakespeare, como Hamlet ou Otelo, em shows de televisão que beiravam o circense, ou, em especial, nas telas durante a época de ouro do cinema italiano, Gassman marcou mais de uma geração com sua presença carismática.

Para comemorar Gassman - ou seja, relembrá-lo de forma festiva -, Veneza reservou a sua noite de abertura à exibição em praça pública, no Campo San Polo, de uma das suas obras-primas, Perfume de Mulher, de Dino Risi. Foi uma sessão inesquecível, em que tudo contribuía para despertar a emoção da plateia. O filme na tela montada em uma das mais belas praças venezianas, a noite estrelada sobre a Serenissima, a presença de três (Paola, Vittoria, Alessandro) dos quatro filhos do ator, um público fervoroso de fãs. E, claro, acima de tudo, a atuação de Gassman, que levava seu personagem, Fausto, do risível ao patético em questão de segundos. Essa passagem de sentimentos, matizados porém intensos, contrastantes mas claros como água, é coisa para poucos atores.

Daí se compreender que Gassman tenha recebido, justo por esse papel, a Palma de Ouro de interpretação masculina no Festival de Cannes de 1975. Também compreensível que o filme tenha feito uma carreira de sucesso e se firmado como um dos títulos mais representativos da chamada commedia all"italiana. Estranha comédia que, sim, faz rir, mas provoca também um nó na garganta de quem assiste. Gassman interpreta Fausto, o capitão que ficou cego em um acidente com bomba durante uma manobra de treinamento militar e tornou-se um recluso amargo, cuidado pela tia idosa. Mesmo assim, parece amar com intensidade a vida e, da vida toda, ama as mulheres acima de tudo. Sente a sua presença pelo odor - pelo Profumo di Donna, título original do filme e marca a presença do grande ator.

Matador. Um ator que poderia não sê-lo, por incrível que pareça. É o que ficamos sabendo na outra parte da homenagem prestada a ele, a projeção do documentário Vittorio Racconta Gassman - Una Vita da Mattatore, de Giancarlo Scarchilli. O subtítulo se refere a um programa intitulado Matador, que Gassman apresentava na TV italiana, iniciado em 1959, quando ele estava no auge da fama como ator de teatro clássico. Havia montado, por exemplo, seu Hamlet em 1952 e teve de prolongar a temporada por cem récitas, num tempo em que, na Itália, as temporadas eram de poucas semanas. O programa foi considerado pouco sério pelos intelectuais, e discriminado por sua mistura eclética de recital poético, vaudeville, stand comedy, num todo que parecia anárquico mas era cuidadosamente planejado. Fez época na TV italiana. Alguns trechos estão no documentário. E, neles, pode-se ver o desempenho físico de Gassman, um verdadeiro clown dotado de porte atlético.

E era isso mesmo. Jogador de basquete, chegou à seleção principal do seu país. Mas acabou enveredando pela carreira artística pressionado pela mãe. Era um sonho da velha senhora vê-lo num palco e ele não quis decepcioná-la. No longo depoimento que dá no documentário, Gassman confessa que teve de forçar sua natureza até o limite para se tornar ator: "Eu era tímido, introvertido, reflexivo; tive de me tornar extrovertido, com ar de fanfarrão, falante - o exato oposto do que a minha personalidade mandava."

Juramento. De certa forma, o filme acompanha essa construção do ator, passo a passo. Gassman relembra que teve de forjar uma voz, uma voz potente, insolente até, em contraste com sua fala miúda da juventude. Construiu essa voz, driblando até mesmo o vício do fumo que o acompanhou durante grande parte da vida: "Fumava a enormidade de 90 cigarros por dia", diz. Jurou parar apenas quando nasceu o filho mais novo, Jacopo, mas o sorriso maroto para a câmera revela que o juramento talvez tenha sido quebrado uma vez ou outra.

Gassman disse que deve muito a Mario Monicelli por sua entrada no cinema. Ele já havia feito outros filmes antes, mas foi como o pequeno malfeitor de Os Eternos Desconhecidos que construiu uma persona. Uma máscara, atrás da qual podia se esconder e enfrentar a câmera. Essa máscara foi desconstruída cuidadosamente por Dino Risi, quando o escalou para o filme que Gassman considera o seu melhor: Aquele Que Sabe Viver. "Eu que me escondia completamente atrás da maquiagem em Os Desconhecidos de Sempre, abri meu rosto em Il Sorpasso, sob a batuta de Dino", diz.

Realizar o desejo materno talvez o tenha levado à doença na fase final de sua vida. "Ir tão contra a minha natureza deve ser a causa da grande depressão em que estou mergulhado", lembra, com franqueza. E ajunta: "Mas, tudo somado, acho que valeu a pena." Nós também, Vittorio.

PRINCIPAIS FILMES

* Aquele que Sabe Viver

Aqui, Gassman é um fanfarrão ao lado de Jean-Louis Trintignant. Suprassumo da comédia agridoce, marca registrada de Dino Risi

* Perfume de Mulher

Fausto precisa da ajuda de um recruta para uma viagem. Dessa convivência, nascem situações cômicas e tragicômicas

* O Incrível Exército de Brancaleone

De Mario Monicelli, é uma das comédias mais engraçadas de todos os tempos, com trapalhadas antológicas

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