Clint, o estranho que amamos

Evento no CCBB traz o essencial do ator e diretor que virou mito em Hollywood

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2011 | 03h07

Clássico e implacável. A mostra que o Centro Cultural Banco do Brasil dedica ao ator e diretor Clint Eastwood pode não trazer todo o xerife de Hollywood. Seriam necessários muitos mais filmes para mapear a trajetória de Clint na TV, por exemplo, onde ele adquiriu projeção com a série Rawhide, nos anos 1950. Hollywood resistia ao astro e ele teria sido, quem sabe, confinado a uma carreira de coadjuvante se o italiano Sergio Leone não o tivesse chamado para protagonizar o homem sem nome na sua série de westerns - Por Um Punhado de Dólares, Por Uns Dólares Mais e Três Homens em Conflito.

Com a cumplicidade do compositor Ennio Morricone, Leone fez do spaghetti western uma espécie de ópera bangue-bangue, mas seus filmes com Clint, principalmente o primeiro, revisto hoje, ainda é malfeito e não possui o refinamento que o diretor foi polindo, a seguir. Encerrada a fase na Itália, Clint voltou para os EUA e iniciou outra série, agora de cinco filmes, com o diretor Don Siegel. O penúltimo, Perseguidor Implacável, de 1972, criou o mal-entendido. O personagem Dirty Harry, por seus métodos violentos, esculpiu para o ator a imagem de bronco e fascista.

Clint virou o astro que as feministas adoravam odiar. Curiosidade - seu melhor filme com Siegel, que não está no ciclo, chama-se O Estranho Que Nós Amamos. Não ajudou a melhorar a imagem seu longa de estreia na direção, Perversa Paixão, de 1971. O próprio Clint faz DJ de rádio perseguido por ouvinte que pede que toque Misty para ela (Play Misty for Me, título original). Jessica Walter faz uma louca de pedra e, antecipando Glenn Close em Atração Fatal, clama para ser abatida. O segundo longa, O Estranho sem Nome, pegando carona no ciclo italiano, antecipa o que será a fidelidade do Clint autor ao western. O terceiro, Interlúdio de Amor, provou que o Clint diretor não era fogo de palha. Tinha vindo para ficar.

Pode ser que Clint, detrás das câmeras, tenha escorregado aqui e ali, mas a obra é consistente e dois Oscars de direção - por Os Imperdoáveis, em 1992, e Menina de Ouro, em 2004 - não representam pouco. O homem é um clássico e, quando acerta - os dois vencedores do Oscar e também Bird, Coração de Caçador, o romântico As Pontes de Madison e Gran Torino -, faz filmes imensos. Como ator, além das séries com Leone - Por Um Punhado de Dólares baseia-se em Yojimbo, de Akira Kurosawa - e Siegel, houve outra boa parceria com Brian G. Hutton, mas ela durou somente dois filmes, O Desafio das Águias e Os Guerreiros Pilantras, o que foi pena. Se tivesse continuado filmando com Clint, que lhe fornecia os meios, Hutton não teria se eclipsado, como ocorreu.

Nosso homem está agora num momento decisivo da vida, e da carreira. Aos 81 anos - nasceu em 1930 -, Clint depende muito do desempenho de J. Edgar, com Leonardo DiCaprio no papel do todo-poderoso diretor do FBI, J. Edgar Hoover. O filme estreia no começo do ano no Brasil. Clint vem de dois relativos fracassos no mercado norte-americano - Invictus e Além da Vida. Um terceiro o transformaria em veneno para os produtores, mesmo que todos os seus filmes terminem por se pagar no exterior.

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