Cleyde Yáconis interpreta escultora sul-africana Helen Martins

Com talento lapidado pela experiência, atriz exprime sentimentos mais contraditórios em 'O Caminho para Meca'

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

03 de abril de 2008 | 17h05

Ainda que sejam obras muito diferentes, impossível não pensar no artista pernambucano Francisco Brennand ao visitar, na internet, as esculturas construídas por Helen Elizabeth Martins (1897-1976) no quintal de sua casa em um lugarejo da África do Sul, distante 12 horas da cidade do Cabo. Mas as diferenças não são apenas estéticas. ‘Miss Helen’ enfrentou a hostilidade e o conservadorismo dos habitantes da pequena cidade onde vivia, incapazes de compreender como expressão artística suas estranhas esculturas feitas com cimento.  Veja também:Cenas da peça e entrevistas com os atores   Outro artista, o dramaturgo sul-africano Athol Fugard fez de Helen Martins a protagonista da peça O Caminho para Meca. E, para sorte do público brasileiro, essa mulher singular será vivida por uma atriz como Cleyde Yáconis que aos 84 anos, com talento lapidado pela experiência, é capaz de exprimir com clareza os sentimentos mais contraditórios e, para tanto, escolher e elaborar expressões e gestos no limite do detalhe. A peça estréia no sábado, 5, para convidados e inaugura o Teatro Cosipa Cultura, situado ao lado da estação Conceição do metrô, no bairro do Jabaquara. Na direção, a mineira Yara de Novaes, e no elenco, além de Cleyde, estão ainda Cacá Amaral e Lúcia Romano, atriz que acaba de ganhar o Prêmio Shell por sua atuação em Vem Vai, o Caminho dos Mortos.  "Não se trata de uma biografia da escultora", diz Yara. "Sua história é porta de entrada para tratar de temas como liberdade, segregação racial. Mas o autor o faz colocando as personagens em circunstância, em embates profundamente humanos." Helen Martins vivia uma vida bastante convencional, freqüentava o culto protestante, até o momento em que fica viúva. A partir daí, isola-se e começa por transformar os objetos dentro de sua própria casa para depois seguir criando sua "meca" no quintal. "O que fascina no texto é a forma como ele trata realisticamente de fantasias ao retratar essa mulher que constrói um outro mundo, sua Meca", diz Cleyde.  Mas que ninguém espere encontrar reproduções de suas esculturas no palco. "Não imitamos nada, o arremedo não interessa, apenas buscamos as cores e uma certa estranheza na ambientação", diz Yara. Lúcia Romano interpreta Elza uma admiradora da criação de Helen que busca apoiá-la e entra em embate com o pastor vivido por Cacá Amaral. "À primeira vista, ele parece o vilão absoluto, uma vez que quer interditar a escultora, colocá-la num asilo. Mas já na primeira leitura Cacá Amaral o interpretou de forma muito sedutora e vi que ali havia uma oportunidade de humanizar esse homem. Ele pensa mesmo em proteger a escultora, cuja casa é apedrejada por garotos." Para a mentalidade tacanha da cidade interiorana, Helen é considerada uma bruxa.  Para a diretora, uma das qualidades do texto é escapar das conciliações fáceis. "Não há negociação entre os personagens. Todos chegam a um determinado ponto em que tudo pode ser validado ou falido. Os três personagens vivem no tempo real da peça um rito de passagem, uma revisão de valores na qual traição e tradição podem unir-se." Há um tom quase fabular no qual Meca pode ser a morte. "Mas é algo mais abrangente que a morte, tem a ver com a idéia do mestre que alcança uma forma particular de existência, de ser", diz Yara.  Muitos cuidados cercam a concepção do espetáculo, mas para o público o grande atrativo mesmo deve ser a possibilidade de apreciar o trabalho de Cleyde Yáconis, que vive um momento especial de sua carreira, como ela própria constata na entrevista ao lado.  O Caminho para Meca. 90 min. 12 anos. Teatro Cosipa Cultura (288 lugs.). Avenida do Café, 277, Jabaquara, 5070-7018. 6.ª, 19h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40. Até 1.º/6

Tudo o que sabemos sobre:
Cleyde Yáconis

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.