Cleonice Berardinelli atualiza Gil Vicente e antologia de Pessoa

ROBERTA PENNAFORT

RIO, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2012 | 03h11

Quando a maior autoridade em literatura portuguesa no Brasil utiliza a expressão "que eu saiba" ao discorrer sobre escritores como Fernando Pessoa, Luís de Camões e Gil Vicente, os quais ela estuda em profundidade há cerca de seis décadas e recita com perfeita fluência, sabe-se que se está diante de uma intelectual sem par.

Noventa e seis anos festejados em agosto, fêmur em recuperação depois de uma queda que partiu o osso em quatro pedaços, a carioca Cleonice Berardinelli não sai de casa só para tomar chá na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleita em 2009. Dá conferências, orienta teses, encontra-se com gerações de ex-alunos. Até três anos atrás, ainda dava aulas na pós-graduação da UFRJ e da PUC-Rio. No momento, tem um trabalho enorme pela frente: ela atualiza parte de sua bibliografia na Casa da Palavra.

A coleção da editora já nasce referencial. O primeiro volume é Gil Vicente - Autos, que saiu há pouco; o segundo é a Antologia Poética de Fernando Pessoa, paixão maior e sua grande especialidade, que chega às livrarias hoje, com poemas de Álvaro de Campos que não estavam na original. São livros enriquecidos com glossário, notas alargadas e textos críticos escritos por ocasião de congressos e cursos "ao longo de uma vida de muito aprendizado, e que não foi nada curta", brinca Cleonice. Ela conversou animadamente com o Estado durante uma hora por uma hora, nas dependências da ABL - é a integrante mais idosa da casa, mas a vivacidade, a despeito do atual "equilíbrio precário", lhe remoça uns 20 anos.

Poeta de densidade, dramaturgo considerado o pai do teatro português, autor da transição da Idade Média para o Renascimento, no período dourado de expansão ultramarina e consolidação do império colonial do país, Gil Vicente viveu, estima-se, entre 1465 e 1536. Malicioso, pessimista sobre o tempo em que vivia, escreveu para a corte sem se furtar a atacar o clero e tratar do cotidiano do povo. No decorrer do século 20, foi esquecido no Brasil, ressente-se a autora, que incluiu na edição oito ensaios sobre distintos aspectos da obra vicentina. Ela sonha com um revival a partir da publicação, que compila seus principais autos. Quem sabe novas montagens nos palcos?

"Houve um tempo em que Gil Vicente era representado no Brasil. As plateias iriam divertir-se, os espetáculos poderiam ser precedidos de uma fala sobre ele", sugere a estudiosa, que lhe modernizou a grafia para facilitar a leitura. "Não há obra mais ampla. Era de fé católica, mas fez críticas terríveis à Roma secular. Ele exibia esse desassombro, mas tinha as costas quentes, era convidado por reis e rainhas."

Não é só com Gil Vicente que se preocupa. Cleonice vê com espanto a ausência de autores fundamentais nos currículos universitários. "Os meus colegas professores de literatura portuguesa preferem dar autores modernos, como António Lobo Antunes, José Cardoso Pires e Mário Cláudio, em detrimento dos clássicos", reclama. "Eu dava da Idade Média ao século 19. Hoje não dão nem Camões. Eu acho que eles não sabem dar Camões, porque seus professores já não davam. Um autor como ele é um repositório de informações! Gil Vicente ainda tem a dificuldade de a língua ser arcaica... Mas faz críticas sociais que são inteiramente modernas."

Professor da Faculdade de Letras de Coimbra, José Augusto Cardoso Bernardes lembra na orelha do livro que "para muitos críticos, a importância de Gil Vicente só é superada pela intocável centralidade de Camões". Já Cleonice prefere não hierarquizar seus amores.

A coletânea, de 512 páginas, é dividida em autos, tragicomédias, farsas e comédias, e traz o autoepitáfio do poeta: "O grão juízo esperando,/ jaço aqui nesta morada,/ também da vida cansada/ descansando./ Pregunta-me quem fui eu:/ atenta bem pera mim/ porque tal fui com' a ti/ e tal hás de ser com' eu./ E pois tudo a isto vem/ oh, leitor de meu conselho, toma-me por teu espelho,/ olha-me e olha-te bem".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.