Claudia Raia vive transexual em novela das 7

Claudia Raia foi duas vezes agredida fisicamente pelo novelista Silvio de Abreu. A primeira em 1990, quando engordou 11 quilos para interpretar a desengonçada e colossal bailarina Adriana em Rainha da Sucata. A segunda, oito anos depois, ao fazer a Angela de Torre de Babel, uma psicopata "capaz de matar e depois tomar calmamente um suco de melancia", conforme descrição da protagonista."Essa foi um dos melhores personagens da minha vida, minha primeira vilã", lembra Claudia. "Mas sem dúvida me fez sofrer." Depois de decorar e gravar laudas e laudas de muita maldade, a atriz chegava em casa "envenenada" e com dores musculares pelo corpão de 1,79m de altura. O suco de melancia não lhe caía bem. Vomitava. "Eu vivia com o estômago irritado. E tinha dores porque tensionava a musculatura. Queria que a Angela fosse dura, então virava o tronco junto com o pescoço".Passados três anos da tormenta, Claudia se prepara para gravar, no início de junho, as cenas de uma nova personagem de Silvio de Abreu, a Ramona de As Filhas da Mãe - novela prevista para substituir Um Anjo Caiu do Céu, na Globo, no horário das sete. Ramona é, ou era, Ramon. Ou seja: é um transexual. Mas engana-se quem pensa que, em função dessa peculiaridade do papel, Claudia poderá dar vazão aos gestos estabanados próprios de seu comportamento. (O raio de ação de um cruzar de pernas de Claudia Raia é enorme. Durante a entrevista, ela se desculpa diversas vezes com a repórter por distraída e repetidamente lhe chutar a canela.) Talvez uma impostora - Embora o cromossomo número 23 de Ramona seja, supostamente, XY - lembre-se da aula de biologia: se fosse mulher seria XX -, ela é naturalmente delicada, refinada, elegantérrima. Não se assemelha em nada a uma drag queen. Nem tem pêlos na perna! "Foram tirados com eletrólise", conta Claudia, cúmplice de sua personagem. Ramona é mesmo um tipo suspeito: pode ser que seja realmente mulher. Mas isso nem Silvio de Abreu sabe - alguns tipos fictícios têm vida própria."É provável que ela seja uma impostora", explica Claudia, "porque a novela conta a história de três irmãos, um menino e duas meninas, separados na infância. Quando eles se reencontram, anos depois, brigando pela herança da mãe, o menino diz ter virado mulher. Mas quem pode garantir que Ramona é Ramon"? Para manter o mistério, Ramona/Ramon se recusa a fazer o teste do cromossomo 23 ou mesmo um simples exame de DNA. Alheia(o) à polêmica sobre sua sexualidade, vive um apimentado romance com um bonitão, interpretado por Alexandre Borges.Por enquanto, como ainda não recebeu seu primeiro calhamaço de textos, Claudia se prepara para interpretar Ramona apenas cuidando do visual. Está clareando sua longa cabeleira negra. "Coloca aí que meu cabelo é de verdade, não é megahair", diz, divertida, puxando para cima todos os fios, juntos, num teste de aderência. Tanta preocupação tem razão de ser. Nos anos 80, ao apresentar-se numa feira de moda no Espírito Santo, Claudia teve os cabelos quase arrancados por grupo de fãs descrentes de que tamanha fartura capilar pudesse ser obra de Deus e não uma perucona de grife.Naquela época, ela usava, como a maior parte das mulheres preocupadas em seguir "as últimas tendências", o cabelo cortado em camadas, o que dava a qualquer uma a aparência peculiar de quem acabou de chegar de um passeio de moto. Sem capacete, é claro.Tipão drag - Plantada numa cabeça a 1,94 m de altitude (a altura de Claudia mais seu inseparável salto 15), a cabeleira, logicamente, chamava mais atenção do que qualquer outra. Resultado: aliada aos brincos enormes, ao bocão sempre pintado de vermelho e às roupas espalhafatosas, rendeu a Claudia a fama de extravagante, quase brega. Miguel Falabella, um dos melhores amigos da atriz, dizia na época: "Essa é uma mulher que não se veste - só usa traje típico".Quem puder que atire a primeira pedra: alguém tinha bom gosto nos exagerados anos 80, tempo das purpurinas, das calças manchadas, das fuseau usadas embaixo de sainhas justas, das infladas saias balonê? "Eu tinha mais área física para preencher com tudo isso. Até de joelhos sou grande, né?", ri-se Claudia. "Mas, realmente, com o tempo fui mudando. De maneira natural. Não sei precisar um momento. Amadureci, eu acho. Fui percebendo o que fica melhor em mim."Não se pode chamar de discreto o conjunto em tons roxo e lilás que Claudia veste durante a entrevista. Mas a roupa está muito, mas muito longe de ser brega, espalhafatosa ou parecer-se com um traje típico. Tem personalidade, apenas. Como Claudia Raia. Ela ainda sofre os efeitos da fama, um dia conquistada, de over. A divulgação de que faria uma transexual na tevê despertou comentários de que não poderia haver melhor nome que o dela para o papel, em função de seu tipão drag.Claudia não se incomoda. Aos 34 anos de idade, atriz reconhecida (há muito tempo deixou de ser simplesmente um corpão bonito da tevê), bailarina de sucesso (está em cartaz, há quase sete meses e platéia sempre lotada, com o musical O Beijo da Mulher Aranha, no teatro Jardel Filho, em São Paulo), Claudia Raia sabe a altura que tem. E também o tamanho de seu talento.

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